17 setembro, 2010

Esperando: o trabalho de parto

Finalmente a chuva veio. Deitados na cama ouvimos o barulho característico que nos acordou, entre uma contração e outra. Não foi uma chuvinha qualquer, depois de meses, a água veio com ímpeto, transformando nossa rua numa corredeira. O ar melhorou e o cheiro que há tempos não sentíamos, encheu nossas narinas, enquanto nos debruçávamos na janela sob respingos da esperada chuva.

A chuva veio antes da Manuela, mas ela não tardaria. As contrações estavam ficando mais fortes e mais amiúde. Ainda tentávamos dormir nos intervalos, e éramos despertados, ela pelas dores, eu pelos gemidos. Quando vinham as contrações era impossível para Julieta permanecer deitada, a parede era sua melhor amiga. Por volta de duas e meia da manhã, ficou impraticável voltar a dormir, as contrações estavam muito frequentes. Eu, com o celular, media os intervalos e a duração. Fazia massagens na lombar tentando aliviar o incômodo e andava pela casa nos intervalos. Mais tarde, sentada na bola, Julieta encontrou uma posição de conforto, e passou a ter as contrações em silêncio meditativo.

Eram quase seis da manhã, com sol já nascendo e sem chuva, quando liguei de novo para a Doula Mariana. Tomei café como pude, já tinha tomado um energético para ficar mais desperto, mas sono era a última coisa na minha cabeça. Passado um tempo, Mariana chegou e passou a acompanhar a Julieta. Foram para de baixo do chuveiro, Julieta na bola usando a água quente como anestésico. As contrações já vinham de três em três minutos, Julieta fez um toque e achou que já sentia a cabeça da Manuela bem baixa. Era hora de ligar para a Dra. Daniela, antes liguei para o hospital para saber se a suíte PPP estava liberada. Estava tudo certo para partirmos para a Maternidade. Eram oito e vinte.

No carro Julieta ficou de joelhos no banco traseiro, com a cara no encosto, Mariana a assistindo. Dirigi em silêncio e com cautela, passando devagar nas lombadas, não obstante, a viagem não foi agradável para Julieta, como não poderia deixar de ser. Deixei-as na porta da Maternidade e fui estacionar. Julieta pediu que chegando no quarto ligasse para sua mãe. Ansioso, liguei assim que estacionei, bem como para minha mãe. Fui fazer a ficha na recepção enquanto ela foi ser examinada, antes da admissão. Liguei para o eu irmão e pedi que avisasse no trabalho que não iria. Julieta e Mariana apareceram revoltadas com o mau atendimento da médica que a examinou, que foi grossa, só disse que havia pouca dilatação, e desacreditou a chance de um parto normal, até desdenhando da vontade nossa. Julieta subiu para a suíte PPP enquanto eu terminava os acertos da admissão. A recepcionista era a mesma que nos apresentou a PPP, quarto onde a parturiente pode ficar no trabalho de parto, dar à luz e ficar o dia seguinte com o recém-nascido. Quarto que a tal médica de plantão disse não existir neste hospital. Quando terminei os procedimentos, Mariana me ligou dizendo que Julieta me queria com ela. Na portaria encontrei com a Daphne, a Doula suplente, que não pode subir a princípio. Dra. Daniela me ligou e pediu notícias, estava a caminho. Subi e encontrei Julieta na bola, concentrada.

Depois de um tempo lá em cima, a Daphne conseguiu subir, logo chegou a Daniela, obstetra. Fez na Julieta o exame de toque e constatou apenas três centímetros de dilatação, as contrações tinham também se espaçado com toda a locomoção até o hospital. Alguém entrou e disse que as avós estavam lá embaixo, desci então com a Daphne e lhes explicamos que o trabalho ainda estava incipiente e levaria ainda longas horas. Elas voltaram para seus afazeres e eu fui fazer um lanche, já eram quase dez da manhã.

De volta ao quarto, a coisa tinha pouco evoluído, mas as contrações voltaram a ficar mais frequentes. Chegou um momento em que elas aconteciam a cada minuto e duravam cerca de um minuto também. Julieta fazia sons, recebia massagens, ficava sob o chuveiro morno e passava bem pelas contrações. O segundo toque foi protelado enquanto pôde, os batimentos cardíacos da Manuela eram monitorados de tempos em tempos. A dificuldade passou a ser conciliar uma posição em que a Julieta ficasse confortável e a médica pudesse medir bem a frequência cardíaca.

Julieta permaneceu de jejum, se hidratando com água, isotônico e água de coco. Ofereceram-me almoço diversas vezes, mas estava sem apetite. As doulas também acabaram ficando em jejum. A pediatra de plantão era a Dra. Nanci com quem havíamos conversado, pois a Dra. Soraya viajaria no feriado. Acabou que ficamos confortável com a coincidência e nem ligamos para a Soraya.

O segundo toque acabou ocorrendo, não sem certa resistência, com a Julieta em quatro apoios, pois as contrações não davam trégua. Chegara a cinco centímetros. Não demorou meia hora para que um novo exame mostrasse sete centímetros de dilatação, era meio dia e meia e a coisa parecia começar a se acelerar.

Houve um momento de tensão, não sei precisar bem quando, mas os batimentos da Manuela tinham se alterado e obstetra cogitou descer com a Julieta para o bloco. Foi um balde de água fria. Desnecessário, pois ela sim diminuía a frequência cardíaca e logo recuperava, mas só durante as contrações ou quando a Julieta estava numa posição desconfortável. Julieta aprendeu a respirar com a filha e a cada novo monitoramento seu coração se mostrava perfeito.

Julieta praticamente não saía mais do chuveiro, na bola, de joelhos, escorada na parede, como o corpo lhe pedisse. Fui até a antessala me deitar um pouco e tentar descansar. Foi quando a Flávia me ligou de São Paulo, após ler o post sobre a 41ª semana. Disse-lhe para ficar atenta ao twitter onde postaria uma mensagem assim que a pequena nascesse. Mal consegui cochilar, meu coração batia forte, pela falta de sono, pela ansiedade, pela emoção. Levantei a uma e quinze, joguei uma água no rosto, não demorou a Julieta me chamou, me queria por perto, sentia agora uma vontade de fazer força, Mariana apontou como um bom sinal. Nos próximos minutos Julieta mudou de fase, entrou como que noutro plano. De mãos dadas comigo, vocalizava, meio que se animalizava. Com doçura gritou, Vem Manuela, vem minha filha. Chorou. E fez chorar as mulheres que a acompanhavam. Trouxe-me para mais perto do parto, do portal que se abria para a chegada da nossa filha.

A próxima hora e meia foi de muita luta, à exaustão, não havia, contudo um adversário. Com o corpo claramente transformado, Julieta foi para a cama onde ficou de cócoras apoiada num aro de metal. A pediatra já foi sendo alertada, a obstetra foi se paramentar. Uma toalha úmida na testa apaziguava Julieta, que estava pronta. Nove meses de gestação, leituras, vídeos, conversas, doze horas de trabalho de parto, contrações, concentração, gana, a prepararam para aquele momento.

3 comentários:

Andreza disse...

LINDO!!!!ANDREZA

Tio Ro disse...

REALMENTE LINDO. Parabéns Leonardo! Verdadeira aula de como conseguir transformar emoção em palavras.
Nascem a Manuela e um pai escritor. E eu aqui, ansiosamente esperando o próximo capítulo...

Bjs
Ti Ró

Natalia disse...

Que delícia de relato!! Que momento mágico!! Faço questão de acompanhar as próximas etapas de uma Manu, hoje com um mês e cada vez mais deliciosa!

Amamos vcs!

Tatá e Aninha.