31 maio, 2014

Parto do Henrique

O parto do Henrique começou ainda na gestação da Manuela. Julieta tinha já uns sete meses de gravidez. Vínhamos lendo, estudando, pesquisando, mas ainda não sabíamos o suficiente. Tínhamos mais informação sobre a gravidez em si, até sobre cuidados com um recém-nascido, mas muito pouco sobre o parto. Foi lendo o relato de parto da Letícia que atinamos para esta falha e novas janelas se abriram. Os encontros do grupo Bem Nascer também foram importantes, muito mais relevantes e esclarecedores que os cursos de maternidades tradicionais. Seguiu-se muita conversa, leitura e vídeos. A tecnologia hoje permite compartilhar experiências mundo afora, inclusive no audiovisual, que aumenta o impacto. Assistimos também ao belo longa “Orgasmic Birth”, na época ainda não existia o nacional “O Renascimento do Parto”. Entramos em contato com uma doula, figura que a princípio eu não entendia e chegava a achar despropositada, mas que se mostrou de suma importância.

E assim foi se desenhando o parto da Manuela, um parto vaginal sem analgesia na suíte PPP (pré-parto, parto e pós-parto) do Hospital Dia e Maternidade Unimed, com uma médica que pouca ou nenhuma experiência tinha neste tipo de parto e duas doulas. Foi maravilhoso, mas poderia ser melhor.

Nos três anos que se seguiram, Julieta esteve cada vez mais engajada na causa do parto humanizado. Houve o parto da Flávia em São Paulo, Miguel não nasceu em casa por um detalhe. E vimos que a transferência para o hospital num parto domiciliar é possível e tranquila. Houve o parto da Natália no Rio de Janeiro, e o outro Miguel, contra todos os lugares-comuns, nasceu em casa, num VBAC (Parto Normal após Cesárea) com seus mais de 4 quilos e mais de 40 semanas de gestação.

O caminho natural era que nosso segundo filho nascesse no conforto da nossa casa. Contudo, havia ainda alguns receios. Ao nos livrarmos dos incômodos que um hospital traz, passaríamos a assumir ainda mais responsabilidades e riscos. Tivemos então todo apoio do médico ginecologista obstetra, da equipe de enfermeiras obstetras e da doula. A Julieta é uma mulher forte e interessada, ao lado dela é fácil tomar decisões. Não é um caminho, fácil. Não é para qualquer um, mas também não para tão poucos. Cria-se uma cultura do medo, que põe a mulher numa posição submissa e fragilizada. Vende-se que a cesárea, uma cirurgia de médio porte, é mais segura que um parto normal. Levou-se para o hospital mais um evento corriqueiro, hoje nasce-se e morre-se num ambiente um tanto hostil e nada familiar. Poucos têm conseguido se livrar desta sina.

Outra preocupação era o papel da Manuela no nascimento do irmão. Ela sempre foi muito racional, mas ainda assim não deixa de ter apenas três aninhos e o elemento mágico fantasioso é muito forte e importante. Nossa então unigênita deve muita dificuldade para lidar com a ansiedade da espera do bebê. Se fossemos para uma maternidade e a deixássemos com os avós, seria penoso, pois isso nunca aconteceu antes na sua vida. Em casa seria mais fácil, embora durante o trabalho de parto não sabíamos como proceder com ela.

No fim da tarde de sexta-feira, após sessão de massagem e escalda-pés com a Doula, Julieta foi tendo contrações cada vez mais amiúde e regulares. Sabíamos que a noite ia ser longa. Fui pra cama com a Manuela. É comum que após um tempo comigo, findas as histórias, ela chame pela mãe. Não foi assim naquela noite. Demorou um par de horas, mas ela dormiu sem reclamar. Nisto, Julieta estava no chuveiro com tantas contrações que mal conseguiu ligar para a doula. Esta chamou as parteiras. Comecei então os preparativos. Logo chegaram, a doula e as enfermeiras. Não houve tempo para ansiedade da minha parte. No quarto do Henrique, inflamos a piscina e começamos a esquentar água para enchê-la. E isso levou tempo. A cada chance ia ver a Julieta, que estava concentrada e cada vez mais perto da “partolândia”, com ocitocina a mil. As meninas da equipe me diziam que não ia demorar, mas eu parecia não acreditar. Perguntei se já podia ligar para minha irmã, que queria assistir ao parto do futuro afilhado. Liguei por volta das 22:40. Mal a banheira tinha água suficiente, Julieta passou do nosso quarto para lá. Vinha trazendo um balde de água quente quando me deparei com um quarto tomado por uma luz azul, Julieta sentada na água com um sorriso no rosto, sendo acariciada pela parteira. Foi o último balde. Disseram – já está vindo, ainda não dei muito crédito, o expulsivo ainda deveria durar uma meia-hora. Pois armei a câmera no tripé e vi que a coisa não seria bem assim. Após poucas contrações e um leve grito, vi o rostinho do Henrique aparecer sereno. Depois de mais uma contração ele acabava de vir para este mundo. A enfermeira desfez duas circulares de cordão que ele tinha. Era um bebê cumprido, parecia que não acabava de sair. Chorou o choro da mudança. Foi para os braços da mãe, onde se aconchegou pele com pele, e onde pude acariciá-lo. Como fiz com a Manuela, agora primogênita, Julieta cantou para o recém-nascido, que de pronto mamou, e o fez por muitos minutos. Minha irmã chegou neste momento, com os dois ainda na água. Nosso filho só saiu do colo da mãe, para vir para o meu, o do pai. A felicidade e a sensação de plenitude são indescritíveis. Tinha cortado o cordão umbilical, que havia pulsado pelo tempo que precisou. Mais tarde veio a placenta, que tomou seu tempo para sair. Deram os pontos, na pequena laceração que a mãe sofrera, e foi o único momento que vi Julieta gemer de dor. A equipe, cuidou da limpeza do quarto, guardou os equipamentos que não se fizeram necessários. Aninhados, contemplávamos nossa cria. Eram duas da manhã, e os pais da Julieta, chegaram trazendo uma deliciosa sopa de legumes, que nos reabasteceu a todos. Às três, estávamos dormindo os três, na nossa cama.

Henrique nasceu dia 18 de abril de 2014, às 23:15, pesando 3,76Kg e medindo 53cm. A Manu ficou dormindo e não viu nada, na manhã seguinte, acordou com a surpresa. E fez a pergunta inocente; mamãe, você estava dormindo também?


Foi tudo lindo e perfeito, se é que existe perfeição. Mas não posso deixar de glorificar o papel da Julieta que se empoderou e assumiu o protagonismo do momento mais feminino da humanidade. Que outras mulheres sigam este exemplo. Tenho memórias para toda vida que este relato só resvalou. Henrique é um presente que veio completar nossa família.


Um comentário:

Neusa Maria Batista Freitas disse...

Estou embalada..., por isso, escrevo hoje o que li há quase 3 meses atrás.
Encantou-me, a mulher, a mãe parideira, o exemplo, a guerreira, a coragem, a certeza, a esperança, a fé, os anjos -visíveis e invisíveis, a sensibilidade da poeta, a narração dos detalhes- que provoca a gratidão, o nascimento, o dar a luz-, a deliciosa sopa, o repouso, o sono sereno..., num lar abençoado!!! Com certeza, nesta noite, nos Templos cantava-se o Aleluia e Jesus sorria de gratidão por mais um cristão: o seu Henrique, que chegou cheiiiiinho de bênçãos! Isso se chama amor! A vcs minha terna e eterna admiração! Beijos de luz! Neusa
P.S.: Espero que tudo que vcs escrevem esteja tb em papel para se tornar em livro ou uma respeitosa Apostila rsrs Deus os abençoe, Com carinho e com afeto, euzinha.