14 outubro, 2007

Fragmentos #1

Entrou em trabalho de parto no metrô, entre duas estações. Sua respiração ficou curta, ofegante e ressonante. Um filete de água saía dos seus pés, passando pelos pés da filha de oito anos e escoava pela fresta da porta. A filha que em breve deixaria de ser unigênita, gritou baixo e agudo. Logo todos os olhares do vagão se voltaram para a mulher oriental de proeminente barriga. Ninguém sabia bem o que fazer. O polaco que tomava uma lata de cerveja pensou em oferecer um gole à mulher, já não raciocinava bem após a décima-sexta latinha. Tomaria a de número dezessete, sentado no banco de uma estação que não era a sua, mas afinal qual seria seu destino? O rapaz que carregava um buquê de flores vermelhas tomou o cuidado de colocá-lo, delicadamente, sobre um banco vazio,antes de se aproximar da gestante. Mais tarde, a namorada recente custaria a acreditar em tal desculpa por não ter recebido nem flores, nem nada, no seu aniversário de um mês. No Natal o bebê provaria chocolate pela primeira vez, sua irmã mais velha, nunca teria filhos, marcada pelo trauma do parto na estação. Muitos meses depois, um cão, filhote ainda, ao passear com seu dono, um negro calado e triste, ficou ouriçado com um cheiro inédito que sentiu num vagão qualquer.

12 outubro, 2007

A morte e a morte de Paulo Autran

Um dia, cheguei no TU mais cedo para a aula e um rumor corria a escola; Paulo Autran havia morrido. Num escola de teatro tal acontecimento causa comoção. E não se falava em outra coisa. Até que surgiu o boato de que Lacraia (!) também tinha morrido.
Falando com Linares, o diretor, ele se limitou em dizer, Grande perda para o Teatro. Vale lembrar que o texto que fiz para o monólogo de teste para entrar no TU foi da peça "Liberdade" originalmente escrita para o ator. Após a aula saímos, vários alunos, fomos ao Quase Nada. Julieta ainda era somente minha amiga, neste dia se não me engano a Duda veio encontrá-la para sairem, as amigas. Na mesa do bar fizemos um brinde ao Paulo Autran.
No outro dia confirmou-se que ele não tinha morrido era nada. Estava vivo e ativo. Nunca se soube quem começou o boato, como ou porquê. Cheguei a vê-lo no palco por duas vezes. Uma peça com Cecil Thiré, "Variações Enigmáticas" e seu monólogo "Quadrante". Aliás, sob o mesmo título, Paulo Autran apresentava um quadro na rádio BandNews. Esses três minutos enchiam de arte e emoção (além de admiração) meu trajeto de fim de tarde, do trabalho para casa. Por mais de um ano ouvi as crônicas, poemas e contos de diversos autores na voz deste gênio da interpretação, diariamente, às 17:15.
Agora estou em Londres de onde pensei em ouvi-lo via internet. Ainda não tinha feito isso, até que vejo num site qualquer a notícia da morte de Autran. Agora sim ele se foi, aos 85 anos, deixando um legado importantíssimo, e a certeza de uma vida bem vivida. Tentem ouvi-lo no site da BandNews.
E vamos ao Teatro!

06 outubro, 2007

Acaso

Andando distraído, conversando sobre celebridades, me deparei com
Dustin Hoffman num set de filmagem!

update: de costas é a
Emma Thompson.

16 setembro, 2007

Pequenas Lembranças #9

Palavras

Mal era alfabetizado. Para mim existiam duas coisas diferentes, o espaço; lugar entre uma coisa e outra, e o espacio; onde ficam os planetas e estrelas, Espacio Sideral.

E ainda achava que o líquido que corre em nossas veias e artérias se chamasse sangre. Mais tarde, refletindo sobre, vi que pensava assim por causa do verbo sangrar e mais recentemente descobri que é assim que dizem em espanhol.

13 setembro, 2007

Série séries #8

Felicity

Gostei muito desta série. A história de Felicity causou em mim grande empatia. Vivi situações muito semelhantes às da protagonista, entrei na faculdade junto com ela e me formei também.
A fotografia é mais dark, mas de uma beleza que me fascinava.
O criador do programa é J.J. Abrams(Com Matt Reeves), sim o mesmo de Lost!
Vale a pena conferir a história de Felicity (a bela Keri Russell), Ben (Scott Speedman) e Noel(Scott Foley).
Perdi a última temporada, mas sei que há coisas meio sobrenaturais, um dia ainda vejo.
Abaixo o vídeo da abertura da primeira temporada.

10 setembro, 2007

Hai-kai #7

Cuidar dos seus
algo que se deve valorizar
contar com família e Deus

3/03/2005


Sua imagem estivera por horas refletida
sem embargo, naturalmente, sumiu.
Será que Alice atravessou o espelho?


4/03/2005

Destroços de uma paixão
Descontrole da emoção
Desmancha em cacos o coração


5/03/2005

03 setembro, 2007

Pequenas Lembranças #8

Mágico

Quando era bem pequeno tomava banho junto com meu pai, sei disso, mas não lembro muito mais do que suas mágicas. Sim, durante o banho, ele fazia truques de mágicas que faziam coisas desaparecerem de suas mãos para surgirem depois em outra parte. Tudo guiado pela musiquinha, à guisa de palavra mágica; Laim-ah-ra. Talvez nessa época achasse mesmo que meu pai fosse mágico. Ficou o momento.

28 agosto, 2007

Série séries #7

Friends








Difícil não gostar de Friends. Foi talvez a série em que mais me viciei. Esperava ansioso pelos episódios inéditos de terça-feira e ainda assistia diariamente às reprises.

São os amigos que qualquer um queria ter, bonitos simpáticos. As situações que vivenciam são menos marcantes e reais que as de Seinfeld, mas não menos deleitosas para o espectador.

Nova Iorque se fazia, na série, extremamente atraente, na figura do inverossímil Central Perk (os autores brincaram com isso algumas vezes, uma vez os amigos entram e não encontram lugar para se sentar e partem desconsolados, em outra Chandler expulsa uns garotos que se sentaram no sofá deles.)

Seus criadores são David Crane e Marta Kauffman (de outra serie de que gosto) fizeram dos seis personagens principais ícones pop (os atores chegaram a ganhar 1 milhão de dólares por episódio) e criaram uma grande saga em dez temporadas.

23 agosto, 2007

Hai-kai #6

Uma volta, uma ida,
um destino traçado além.
Uma incognita chamada vida.


28/02/2005

Jesus fazia teatro
o deserto foi seu palco
Deus seu diretor


1/03/2005

Do passado uma figura
que envelhece e se esvai, mas,
num rincão de memória, perdura.


2/03/2005

15 agosto, 2007

Pequenas Lembranças #7

Furos

Um dia chegou no apartamento da rua Amparo um ser pequeno e careca. Era o terceiro deste tipo. Desta vez mais magro, de choro mais estridente, desta vez menina. Passaram pouquíssimos dias de sua chegada, talvez nem um completo, e entrou uma enfermeira no quarto de meus pais, onde ficava o bebê. Haviam me adiantado o que iria acontecer, fiquei de espreita na sala adjacente e de lá ouvi o choro e os dois estampidos secos que furaram os lóbulos da minha irmã, a quem chamaria Dedeza, Dedê, Pitinina, e hoje simplesmente Andreza. Saiu do quarto com um brinquinho de ouro com, salvo engano, uma pequena pérola, em cada orelha.

Por mais que me dissessem que não doía, me causava espanto que fizessem algo tão bruto a um ser tão pequenino e frágil.

09 agosto, 2007

Ramones no CBGB's


Quisera estar ali.
Um momento seminal, de vanguarda.
Energia em seu estado puro, feita em música.

08 agosto, 2007

Hai-kai #5

Pra mim chega
Eu não agüento mais
Eutanásia

24/02/2005

Se eu pudesse ficava ali
mas meu tempo acabou
o que de bom ficou não tem fim

25/02/2005

Uma festa da Industria e do Capital
e seus artistas em breves momentos
de protesto velado e beleza transcendental

27/02/2005

02 agosto, 2007

Terra

“Parecia tão frágil, tão delicada, que se tocasse com o dedo ela ia esfarelar e se desmanchar.” Isso é de James Irwin, membro da tripulação da Apollo 15.

O astronauta Loren Acton disse tê-la visto “contida no revestimento fino, móvel e incrivelmente frágil da biosfera.”

Para Aleksei Leonov, o primeiro homem a andar no espaço, a Terra parecia “comoventemente sozinha.”

E quando o controle de terra perguntou a Vitali Sevastyanov o que ele viu, ele respondeu, “Meio mundo à esquerda, meio mundo à direita, posso ver tudo. A Terra é tão pequena.”

Neil Armstrong disse, “Levantei o polegar e fechei um dos olhos, e meu polegar ocultou o planeta Terra. Não me senti um gigante. Me senti muito, muito pequeno.” E Neil Armstrong mencionou um sentimento que era “complexo, implacável.”

E Ulf Merbold: “Pela primeira vez na vida, vi o horizonte como uma linha curva, acentuada por uma fina camada de luz azul-escura. Sua aparência frágil me aterrorizou.”

Em 18 de março de 1965, Alexei Leonov saiu da cápsula principal da Voskhod2 empurrando-se de cabeça pela abertura. Um cordão de segurança de cinco metros o prendia à nave. Se arrebentasse, ele vagaria para sempre. Embora a espaçonave estivesse viajando em grande velocidade, não havia ar correndo ao redor para que ele pudesse senti-lo. Ele girou devagar por dez minutos. Mas quando o co-piloto Belyayev ordenou-lhe que voltasse, ele não quis retornar.

Alguns meses depois, Edward White andou no espaço por 20 minutos, embora o termo seja enganoso, pois o movimento é de queda livre ou flutuação. Vista a 25 quilômetros de distância, a terra era quase incaracterística. Quando voltou para a espaçonave, ele tinha perdido 5kg de massa corporal e 2kg de transpiração tinham se acumulado em suas botas. Mas ele também não quis retornar à cápsula. Quando recebeu ordem de voltar à nave espacial, ele disse, “Esse é o momento mais triste da minha vida.” Seu co-piloto o puxou de volta. Em 27 de janeiro de 1967, dois anos depois de sua caminhada no espaço, Edward White morreu num incêndio no Complexo de Lançamento 34 da Estação Aérea do Cabo Canaveral. Ele tinha entrado na Apolo 1 para uma contagem regressiva simulada, junto com o Piloto de Comando Grissom e o Piloto Roger Chaffee, quando o incêndio começou. Anos depois, a esposa de White tirou a própria vida.