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19 setembro, 2011

Promessa a ela

Disseram a ela que podia ser deus. Não acreditou. Não acreditando teve certeza. Como poderia ser um deus sem fé? Todavia aquilo ficou na sua cabeça de criança serelepe. Veio a adolescência, e as preocupações mundanas e os mergulhos depressivos no seu próprio ser a afastaram da promessa infantil. Foi uma adolescente normal nas suas esquisitices. Não quis do mundo mais do que o mundo lhe oferecia. Na juventude foi questionadora, o lugar-comum a desinteressava sobremaneira. Mudava. Era alguém novo, era alguém de novo. Cansada de mudar ou de apenas tentar, parou e pensou, Bem que eu podia ser deus. Numa fração de segundo lembrou do que lhe haviam dito na infância, e de que tinha se esquecido havia muito. Mas quem mo disse? A lembrança era vaga, obscura, ou melhor ofuscada por uma luz diáfana. Foi quando se descobriu grávida e por quarenta semanas gerou um ser, o pariu e o alimentou. Sentiu-se então deus, pois criara vida. E foi intensa, e feliz, na maior parte do tempo. Muitos anos depois, já bem idosa, disse a sua neta, criança serelepe; você pode ser deus. Daí se lembrou.

Leonardo OCunha



escrito em dois tempos.

17 abril, 2009

Fragmentos #3

Era escuro e frio. A esperança se esvaía pouco a pouco, o fio tênue que restava era o que lhes mantinha vivos. A mais obscura face da natureza humana se revelou sem censura. Dor e sofrimento se ressignificavam naquele lugar infame. Tampouco alegria tinha ali o mesmo sentido.

A luz do sol matutina e sorrateira entrava, e seu efeito não era o esperado. Permanecia escuro e frio. Que lugar é esse onde nem o sol dá jeito?

15 abril, 2009

Coffee

- Coffee?

- Sure.

-  I really got to disagree with you, though.

- I knew you would.

- Am I really that predictable?

- That’s not the point. But when you know someone for over three decades…

- What? Now I am worried. You come here make conversation, start talking about
all this serious shit, and now imply that you know me for over three decades. I’m
only thirty-five, you know?


- You got me wrong.

- I think you got everything wrong, sir.

- I didn’t mean to scare you.

- But you sure did.

- Sorry. Could you bring me a doughnut please? You know, you shouldn’t take life so seriously.

- Well, life is the only thing worthy taking seriously.

- Now, I got to disagree with you, lady. Life must be easy. We are not here for
long. It is a sure thing that we’re all going to go. Yet we keep counting our
time here. Now, this doughnut is a serious thing! Do you know what would be better?


- Muffins?

- No. I mean better than counting the years we have been in this world; to count
the time remaining for us here. A countdown.


- We wouldn’t know. Nobody does.

- Well, I’ll be twenty-five next week.

- Really? You look like you are in your late thirties.

- You got me wrong again. I mean in twenty-five years and seven days I’ll be six feet under.

- You’re crazy.

- And you are thirty-nine.

- W-What?!

- I mean, you will be forty years old next month.

- How rude.

- You shouldn’t be sad or upset. You are every bit as beautiful as a thirty-nine-year-old.

- Who the hell are you anyway?

- Does it matter?

- Nobody knows I’m thirty-nine.

- I do.

- That’s the problem.

- On the contrary, ours is a more sincere relationship than any other you have.

- We don’t have a relationship.

- Maybe not yet. Do you see this painting behind me?

- Yes.

- It wasn’t a work of art before the painter finished the whole frame. Now it’s
known worldwide and you have a replica here. But first, Leonardo had to begin it.


- Are you comparing yourself to Da Vinci?

- No. I’m comparing you to Mona Lisa. Or even better, us.

- Do you think the Mona Lisa was meant to be?

-Absolutely. There are some things that are just meant to be, they are part of the universal
plan. No matter what, Leonardo Da Vinci would always paint the Mona Lisa,
anyhow. We, you and I, can start all over again, in a different way, but anyway…


- …We will end up together…

- Coffee?

- Sure.



 Leonardo Cunha

30 março, 2009

Correr

Não queria nada senão correr.
Mas já não corria havia tempo.
As crianças correm, aos velhos
resta contemplar. E na alma,
sem idade, nutrir o desejo infantil
de ir-se contra o vento,
que no instante da corrida
se une ao corpo, fluido e etéreo.
Nunca mais correria, pois
o corpo como um cárcere
não o permitia. Assim que no
momento derradeiro, seu corpo
finalmente se uniu ao vento,
levando a alma eterna
para um passeio lúdico,
definitivo.

27 maio, 2008

Guitar #7

Ethan was on the phone, and complained about the disturbing sounds made by the man and his guitar. Claire kept her eyes closed, and felt lighter than ever. Adolf smiled even more, led by memories brought by the tune. The old man got off on the following station and on his way out addressed a big smile towards Tom. Tom finished his song and went through the carriage asking for a helping contribution. Ethan, after all his complaints, was the only one to spare some change. Tom got his beer back and followed his way, not knowing how much he had affected people’s lives that afternoon.

04 março, 2008

Guitar #6

Jojo, who was next to him, with the eyes on the book, moved away and took a seat, trying to avoid that distressing sound. But now there was not only the reading, there was this country-like music mixing the thoughts. However it did not upset Jojo, it became a soundtrack that improved a quite tense part of the book.

28 fevereiro, 2008

Guitar #5

Tom walked in with the guitar over his shoulder and a can of Budweiser in his right hand. His eyes were sad, always wet. His steps were unsteady and he didn’t hit any passenger with his guitar just by chance. He crossed almost the whole carriage and stopped in front of the last door. He tried to stand still, but the movement of the train and the alcohol in his empty stomach made he move back and forth like in a weird dance. Carefully, Tom looked for something on the floor. He was satisfied with a gap between two seats, and there he laid his can of beer. He came back to the space near the door, got the guitar, hit the strings without making much noise. After a few attempts, Tom energetically played some chords and started singing loud. He sang sad songs about lost loves, and lost people much like himself.

26 fevereiro, 2008

Guitar #4

Jojo andava displicente, com atenção exclusiva ao seu livro, uma história da origem de Hannibal Lecter. Gostava de literatura assim, ágil e tensa, com algum suspense psicológico. Nas telas vira apenas o longa original, e isso quando era bem jovem, se lembra de pouco mais do que do aspecto medieval da máscara que continha o canibal. Nas páginas lera tudo que dizia respeito ao Dr. Lecter. Mal pisara na estação viu que o trem estava prestes a partir, e correu. As portas que já estavam cerradas foram reabertas pelo compadecido condutor. Jojo se pôs de pé frente a porta, olhos fixos na leitura.

25 fevereiro, 2008

Guitar #3

Alguém esperava Ethan. Sua esposa e sua filha unigênita. Contudo, não estava satisfeito. Não havia motivo aparente, mais estava irritadiço e sem paciência para nada e para ninguém. Seu trabalho demanda que circule bastante e use bastante o celular. Odiava telefones. Entrara no trem falando no celular, desligou, sentou-se, carregava também como de costume seu laptop, e um sacola com umas compras para casa. Gostava de fazer agrados para a filha, mas esquecera-se da mulher havia tempos. Ela notava.

02 fevereiro, 2008

Guitar #2

Do lado de Claire se sentou Adolf. Era criancinha de colo quando seu xará invadiu a Polônia e quis expandir o Terceiro Reich mundo afora. Passou a carregar o fardo de dividir o pré-nome com o mais notório déspota do seu século. Usar o bigode que usava era uma afronta, e só teve coragem de fazê-lo sexagenário. Já não tinha muito cabelo na cabeça e o resto dos pelos estavam brancos em sua maioria. Fazia um trabalho vonlutário e a essa hora já estava voltando para casa, satisfeito, embora não tivesse ninguém que o esperasse.



Guitar #1

Claire tinha os olhos fechados. Não sei se por causa do sol que brilhava intenso na altura do seu olhar, ou porque simplesmente queria fechar- se no seu próprio mundo. Cansada estava do mundo externo, cheio de preocupações, obrigações e distrações fúteis. Naquela tarde saíra de casa particularmente desanimada. Acordara tarde, comera qualquer coisa porque tinha de fazê-lo. Quedou-se frente a televisão sem prestar atenção às imagens. Vestira-se com desleixo, e saiu chateada por saber que logo estaria escuro. Ao se sentar na direção contrária à direção do trem, para ficar sozinha num banco, não se deu conta de que o sol estaria baixo e sua luz fraca de inverno viria de encontro a seu rosto.




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17 outubro, 2007

16 outubro, 2007

Chorou uma lágrima azul, como azul era o mundo, porque o mundo é feito só de lágrima.
Quando atingisse o chão seria seu fim.

14 outubro, 2007

Fragmentos #2

Antônio tinha seu trabalho exposto nos maiores museus do mundo, Louvre, Reina Sofia, British Museum etc. Não há quem veja Da Vinci, Vermeer, Picasso ou Van Gogh e não dê uma olhada na obra de Antônio. Não virou um ícone como os demais, morreu sem ter muito dinheiro nem reconhecimento. Mas era feliz, entendia sua posição. E tinha sim admiradores, sua mulher e seu filho. Um dia o filho de Antônio levando seus próprios filhos ao museu, mostrou orgulhoso:
- Olha meninos, outra obra de seu avô.
Um espertinho que passeava com a esposa, apressou-se em comentar:
- O senhor deve estar enganado este é um Caravaggio.
Humilde, retrucou:
- Não senhor, não falo do quadro, falo da moldura.
O homem se envergonhou e logo, pondo reparo na bela e elaborada moldura elogiou:
- Muito bonito o trabalho do seu avô meninos. - E nunca mais olhou para um quadro sem observar sua moldura e pensar na pessoa que a teria feito.

Fragmentos #1

Entrou em trabalho de parto no metrô, entre duas estações. Sua respiração ficou curta, ofegante e ressonante. Um filete de água saía dos seus pés, passando pelos pés da filha de oito anos e escoava pela fresta da porta. A filha que em breve deixaria de ser unigênita, gritou baixo e agudo. Logo todos os olhares do vagão se voltaram para a mulher oriental de proeminente barriga. Ninguém sabia bem o que fazer. O polaco que tomava uma lata de cerveja pensou em oferecer um gole à mulher, já não raciocinava bem após a décima-sexta latinha. Tomaria a de número dezessete, sentado no banco de uma estação que não era a sua, mas afinal qual seria seu destino? O rapaz que carregava um buquê de flores vermelhas tomou o cuidado de colocá-lo, delicadamente, sobre um banco vazio,antes de se aproximar da gestante. Mais tarde, a namorada recente custaria a acreditar em tal desculpa por não ter recebido nem flores, nem nada, no seu aniversário de um mês. No Natal o bebê provaria chocolate pela primeira vez, sua irmã mais velha, nunca teria filhos, marcada pelo trauma do parto na estação. Muitos meses depois, um cão, filhote ainda, ao passear com seu dono, um negro calado e triste, ficou ouriçado com um cheiro inédito que sentiu num vagão qualquer.

14 março, 2007

O que quero para mim: o último jardim onde não há mais jasmim, e o jardineiro vive tão só como o faroleiro, mas é feliz mesmo assim.

22 janeiro, 2007

II

O avô conheceu a avó na feira da cidadezinha onde ela nasceu e aonde ele foi à procura de mercado para suas figuras de madeira então restritas a pequenos macacos, ora num galho, ora não. Ela vendia suas prendices para ajudar em casa. Ele conseguiu um lugar para expor pagando caro a um velho poderoso da região, desfez sua poupança apostando que conseguiria fazer outra maior. Apostou e ganhou, em menos de um ano era o artesão mais prestigiado da região. Com o tempo, passou a fazer gatos e pássaros e jacarés e onças, e qualquer tipo de animal que lhe encomendassem. Casou-se com a esperança de ter um filho homem. Teve sorte, o primogênito foi um varão, e seria o único. Morreu de repente, abraçado a um leão semi-acabado. Seu filho tinha somente dois anos e foi o primeiro a encontrá-lo ali, pensaria que o pai estava tentando domar o leão selvagem, mas ainda era muito novo para tanta imaginação.