04 julho, 2006

Muro

De um só impulso chegou no topo do muro. Ficou ali em pose de bailarino por três segundos. E com uma perna apenas saltou para o outro lado. Caiu fazendo logo três rolamentos laterais e pondo-se prontamente de pé. E passou a andar calmamente, como quem passeia no parque. Só a uns trezentos metro dali, espanou com a mão a terra que tinha nas roupas. E daí a alguns segundos começou a chorar. Não emitia um som, mas muita lágrima vertia de seus olhos. Encharcou as mangas da camiseta enxugando do rosto o suor e as lágrimas. Cessou o pranto. Diminuiu o passo. Olhou para o céu, e sorriu. “Meu pai deveria estar aqui”, pensou. Quando chegou no lago já não pensava em nada. Livrou-se das roupas, e atirou-se nas águas negras e geladas, agitando-as como há muito tempo não sucedia. Secou-se a sol, deitado na grama. Vestiu-se e seguiu caminho. Com os longos e anelados cabelos ainda molhados chegou num vilarejo cheio de casas rústicas todas amarelas de telhado marrom-avermelhado. Estava perdido, girava em torno de seu próprio eixo sem saber para onde seguir. Até que no meios das dezenas de casinhas distinguiu uma, que levava ao lado da porta o numero 135 pintado de tinta verde. Correu até ela, bateu na porta. Esperou inquieto. Abriu uma senhora de cabelos cacheados cor de prata. Abraçou-a num repente, e deixou-se ficar em seus braços longos segundos. Nunca mais voltou para o lado de lá e finalmente foi feliz.


Leonardo de Oliveira Cunha

22 de março de 2006

01 junho, 2006

Top 50 ...até 1996

Fiz um novo top 50, desta vez resolvi deixar de fora os filmes realizados nos últimos dez anos. Penso que o tempo é necessário para saber o quanto uma obra é relevante ou mesmo se gosto mesmo dela. Boa parte dos filmes listados eu vi mais de uma vez, e eles funcionam a despeito da sua idade. A maioria é incontestávelmente obra de arte. Esses são os cinqüenta de hoje ainda tenho muitos filmes a ver e rever.

1-O Gabinete do Dr. Caligari - Robert Wiene, 1919

2-Em busca do ouro - Charlie Chaplin, 1925

3-O Encouraçado Potemkin - Sergei Eisenstein, 1925

4-A idade do ouro - Luis Buñuel, 1925

5-Sem novidades no front - Lewis Milestone, 1930

6-Luzes da Cidade - Charlie Chaplin, 1931

7-Diabo a quatro - Leo McCarey, 1933

8-Cidadão Kane - Orson Welles, 1941

9-Casablanca - Michael Curtiz, 1942

10- Roma, Cidade Aberta - Roberto Rossellini, 1945

11- Os melhores anos de nossas vidas - William Wyler, 1946

12- Ladrões de Bicicleta - Vittorio de Sica, 1948

13- Crepúsculo dos Deuses - Billy Wilder, 1950

14- Um bonde chamado desejo - Elia Kazan, 1951

15- Cantando na Chuva - S. Donen, G. Kelly, 1952

16- Janela Indiscreta - Alfred Hitchcock, 1954

17- Noites de Cabíria - Federico Fellini, 1957

18- Doze homens e uma sentença - Sidney Lumet, 1957

19- A marca da maldade - Orson Welles, 1958

20- Quanto mais quente melhor - Billy Wilder, 1959

21- Os Incompreendidos - François Truffaut, 1959

22- Psicose - Alfred Hitchcock, 1960

23- La Dolce Vita - Federico Fellini, 1960

24- Acossado - Jean Luc Godard, 1960

25- O pagador de promessas - Anselmo Duarte, 1962

26- O Anjo Exterminador - Luis Buñuel, 1962

27- Deus e o Diabo na Terra do Sol - Glauber Rocha, 1964

28- A primeira noite de um homem - Mike Nichols, 1967

29- 2001, uma odisséia no espaço - Stanley Kubrick, 1968

30- Perdidos na noite - John Schlesinger, 1969

31- Laranja Mecânica - Stanley Kubrick, 1971

32- Gritos e Sussurros - Ingmar Bergman, 1972

33- O Poderoso Chefão - Francis Ford Coppola, 1972

34- O Poderoso Chefão-Parte II -Francis Ford Coppola,1974

35- Um dia de cão - Sidney Lumet, 1975

36- Um estranho no ninho - Milos Forman, 1975

37- Taxi Driver - Martin Scorsese, 1976

38- Annie Hall - Woody Allen, 1977

39- Manhattan - Woody Allen, 1979

40- Rock 'n' Roll High School - Allan Arkush, 1979

41- Touro Indomável - Martin Scorsese, 1980

42- Tootsie - Sidney Pollack, 1982

43- Scarface - Brian de Palma, 1983

44- O Baile - Ettore Scola, 1984

45- Asas do desejo - Win Wenders, 1987

46- A dupla vida de Veronique - Krzysztof Kieslowski, 1991

47- A Liberdade é Azul - Krzysztof Kieslowski, 1993

48- A Igualdade é Branca - Krzysztof Kieslowski, 1993

49- A Fraternidade é Vermelha - Krzysztof Kieslowski, 1994

50- Mallrats - Kevin Smith, 1995

02 maio, 2006

NADA

Nada. O que? Nada! Virou-se e foi embora. Três dias depois estava de volta. Desta vez estava mais sereno. O casaco pesado lhe dava uma aparência séria, destoante do clima informal e desleixado de seu all-star sujo e furado. Seu olhar estava cheio de sonhos, tão cheio que parecia estar preocupado, mas já havia passado desta fase, agora só vislumbrava os possíveis porvires, sem medo. No espelho lateral viu seu rosto e se descobriu uma pessoa diferente. Lembrou-se de seu pai, se distraiu em pensamentos e só voltou à realidade quando ela chegou. Pela primeira vez em semanas se abraçaram, e pela primeira vez por iniciativa exclusivamente dele. Ela gostou. Seguiu-se ao abraço uma troca de olhar prolongada, cuja duração não pode ser medida, pois nessas situações cada um tem sua percepção própria do tempo. Ela estava vestida somente com uma camisa de malha gasta e confortável, suficiente para a decência. Levava os cabelos desgrenhados, os olhos inchados, como de quem chorara ou acabara de acordar. Fizera as duas coisas. Ele não percebeu, apenas via nos olhos dela o pedacinho de alma, que Deus deixou amostra quando criou o homem. Ele respirou fundo e com a expiração soltou, E aí? Veio hoje à noite, respondeu ela sem pausa. Não se disse mais nada. Ele largou seu corpo e agachado chorou. Ela se aproximou tocou-lhe na cabeça. Ele enlaçou com os braços suas coxas e recostou a cabeça no ventre dela. Foi segundo momento de maior intimidade dos dois.

Leonardo de Oliveira Cunha

16 de maio de 2005

26 abril, 2006

Onde está nossa culpa?

Onde está nossa culpa? Nascemos com culpa de algo que não fizemos. Temos a culpa e somos vítimas, não obstante. Ostentamos luxos desnecessários, - que luxo é necessário?. Não desenvolvemos a verdadeira consciência e somos nós quem a deveria ter, pois tivemos e temos as condições para tanto. Comida, moradia, educação. E os agentes de alienação são ainda mais fortes e uma maioria nem consegue ver além, outros tantos vêem mas não agem. Ignorância é culpa, omissão é culpa. Nosso sistema é atroz, desumano. E cento e poucos anos de história nos fazem crer que não há outra alternativa, que é assim porque deve ser assim e nada se pode fazer. A mudança deve ser profunda e sistemática, mas é possível. Podemos e temos medo de saber que o poder está conosco. Na união, na miscigenação, está a solução. Se ainda discriminamos cor, como querer aprofundamento em questões mais complexas. Se não aceitamos crenças diversas, como pensar além. Somos inconseqüentes ao buscar diversão em algo ilícito, que ao comprarmos financiamos miséria, violência, dor, morte. As grandes companhias lucram com cigarro, álcool, petróleo, aço, refrigerante, tênis, sob o suor de trabalhadores mal remunerados, que não são nem ao menos capazes de adquirir o que produzem. E a publicidade alimenta sonhos, desejos, irreais, que só fazem aumentar as diferenças. A diferença entre ricos e pobres, entre querer e poder. Necessidade e desejo se confundem perigosamente. Temos medo de transmitir nossa indignação, não passamos para o próximo a vontade de mudança.


Leonardo de Oliveira Cunha, 8 de setembro de 2005.

07 março, 2006

O Preconceito e a Indústria

Um filme se destacou na produção industrial Hollywoodiana em 2005. Seu destaque não se deveu ao fato de ter atingindo valores vultosos nas bilheterias, antes pelo contrário. Sua arrecadação no seu país de origem foi modesta e pelo Brasil passou quase despercebido, ficou em Belo Horizonte pouquíssimo tempo em cartaz e nas salas ditas alternativas. Bem, isso não é tão improvável dado que é o primeiro filme do diretor Paul Haggis, embora também, ele tenha juntado um elenco de categoria com nomes como Don Cheadle, Matt Dillon, Sandra Bullock, Brendan Fraser, todos em ótimas performances. E um dos motivos do seu destaque é justamente este, um diretor iniciante logrou fazer um filme consistente, tanto na forma como no conteúdo e obteve de seus atores – vários aliás e com participação bem equilibrada – um resultado invejável.


O filme é Crash, que no Brasil ganhou o subtítulo (contestável como de costume) – No Limite. Ele segue a tradição de filmes como Short Cuts, Nashvile, ou os recentes, Magnolia e 21 Gramas, e mistura no ambiente urbano de Los Angeles, pelo menos, cinco histórias com seus personagens e subtramas. Tudo isso para mostrar a diversidade da formação do povo americano, com os negros, os orientais, os libaneses, os latinos, e como os diferentes núcleos não conseguem se comunicar e se entender barrados pelo preconceito, pela hostilidade, pela intolerância, pelo medo. O filme e seu diretor conseguem mostrar que este preconceito de fato existe, por mais mascarado que possa ser, e ele não é em si justificável, tampouco recriminável. Ele mostra seres humanos ambíguos, susceptíveis a atitudes diametralmente opostas de um momento para outro. Como o mais canalha e racista oficial de polícia que mostra seu lado humano ao cuidar do pai doente, ou ao salvar a mesma mulher que havia agredido. É mesmo neste ponto que está sua maior qualidade e seu maior defeito, quando chega a forçar o enredo para mostrar estes dois lados de todos os personagens. Num dado momento da projeção se tem a impressão de que tudo vai sempre acabar muito bem, no mais americano happy end, por sorte da fita um episódio desfaz essa sensação. Independente de aspectos isolados, Crash é um grande filme, o Brasil precisa de um Crash para desmascarar nossos diversos preconceitos tão velados em todos os níveis.

O segundo aspecto que chama a atenção em Crash – No Limite é sua relação com a indústria norte-americana de cinema e sua máquina de marketing. A Paul Haggis só foi possível ter seu debut num filme de tal envergadura por ter sido indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado por Menina de Ouro ano passado. Pode-se dizer que o prêmio não tem relevância artística, mas sua importância para indústria é patente. O Oscar dá visibilidade, e abre portas. Sendo – de certa forma até surpreendentemente – indicado a cinco estatuetas incluindo melhor filme, Crash teve o empurrão que precisava, que só esta forte indústria poderia dar. Crash volta às salas de cinema no Brasil em 17 de fevereiro, e com certeza alguns milhões mais de dólares entrarão na sua bilheteria doméstica. Uma indústria assim e todo seu aparato de marketing seriam bem vindos também no Brasil, trazendo mais auto-estima, mais incentivo à produção, e maior chamarisco para o público local. Aqui um filme ganha o nosso festival mais prestigiado – Gramado –  e demora mais de um ano para ser lançado comercialmente, e quando o é fica timidamente em algumas poucas salas e por curto tempo.

Leonardo OCunha

10 de fevereiro de 2006

08 fevereiro, 2006

Feliz, tadinho

Era um sujeito tão feliz que dava dó. É. Porque sua felicidade era boba, vã, ingênua. As pessoas o viam e diziam, Tão bonzinho tadinho. Era feliz assim porque via a vida com mais cores, mais música. A realidade dura não lhe afetava. Amolecia tudo com sua percepção ímpar. Quando criança não era assim, era como todas as crianças, brincava, brigava, chorava. Pela época da adolescência que sua maneira singular começou a se desenhar. Lia muito por este tempo, agora já não lê nada. Não precisa.

Num dia sem nuvens ou numa noite sem lua, já não se sabe, ele subiu ao céu. Não era deus, nem santo, mas era sonhador o os sonhos nos dão asas, e com elas voou. Ao infinito se dirigiu com um sorriso no rosto e nunca mais voltou. Foi Feliz!



21 de julho, 2005

15 janeiro, 2006

Socorro, Teatro, me socorra!

Socorro
Teatro, me socorra!


Durmo,  me acorde
Estou com preguiça, me dê vergonha
Estou cansado, me erga
Estou indiferente, me bata
Continuo indiferente, me quebre a cara
Tenho medo, me dê coragem
Sou monstruoso, me humanize
Não sonho mais, me chame de fraco e imbecil
Esqueci, lance sobre mim a Memória
Estou triste, vai buscar a alegria
Estou cego, convoque todas as Luzes
Fui recrutado pelo Ódio, dê todas as forças ao Amor.


Adapatação minha para um discurso da Arianne Mouchikin

13 dezembro, 2005

Top 50 Filmes

Bom, aí estão 50 dos filmes do meu maior apreço, por ora. (a lista na verdade foi elaborada há um ano, carece de uma atualização que talvez faça em breve.)

1-Em busca do ouro - Charlie Chaplin, 1925


2-O Encouraçado Potemkin - Sergei Eisenstein, 1925


3-Sem novidades no front - Lewis Milestone, 1930


4-Luzes da Cidade - Charlie Chaplin, 1931


5-Diabo a quatro - Leo McCarey, 1933


6-Cidadão Kane - Orson Welles, 1941


7-Casablanca - Michael Curtiz, 1942


8-Os melhores anos de nossas vidas - William Wyler, 1946


9-Ladrões de Bicicleta – Vittorio de Sica, 1948


10-Crepúsculo dos Deuses - Billy Wilder, 1950


11-Cantando na Chuva - S. Donen, G. Kelly, 1952


12-Janela Indiscreta - Alfred Hitchcock, 1954


13-Noites de Cabíria - Federico Fellini, 1957


14-Doze homens e uma sentença - Sidney Lumet, 1957


15-Quanto mais quente melhor - Billy Wilder, 1959


16-Os Incompreendidos - François Truffaut, 1959


17-Psicose - Alfred Hitchcock, 1960


18-La Dolce Vita - Federico Fellini, 1960


19-Acossado - Jean Luc Godard, 1960


20-O pagador de promessas - Anselmo Duarte, 1962


21-Deus e o Diabo na Terra do Sol - Glauber Rocha, 1964


22-A primeira noite de um homem - Mike Nichols, 1967


23-Perdidos na noite - John Schlesinger, 1969


24-Laranja Mecânica - Stanley Kubrick, 1971


25-O Poderoso Chefão - Francis Ford Coppola, 1972


26-O Poderoso Chefão - Parte II - Francis Ford Coppola, 1974


27-Um estranho no ninho - Milos Forman, 1975


28-Taxi Driver - Martin Scorsese, 1976


29-Annie Hall - Woody Allen, 1977


30-Manhattan - Woody Allen, 1979


31-Rock 'n' Roll High School - Allan Arkush, 1979


32-Touro Indomável - Martin Scorsese         , 1980


33-Tootsie - Sidney Pollack, 1982


34-Scarface - Brian de Palma, 1983


35-O Baile - Ettore Scola, 1984


36-A dupla vida de Veronique - Krzysztof Kieslowski, 1991


37-A Liberdade é Azul - Krzysztof Kieslowski, 1993


38-A Igualdade é Branca - Krzysztof Kieslowski, 1993


39-A Fraternidade é Vermelha - Krzysztof Kieslowski, 1994


40-Mallrats - Kevin Smith, 1995


41-Carne trêmula - Pedro Almodóvar, 1998


42-Central do Brasil - Walter Salles Jr., 1998


43-Tudo sobre minha mãe - Pedro Almodóvar, 1999


44-Beleza America - Sam Mendes, 1999


45-E sua mãe também - Alfonso Cuaron, 2001


46-Mulholland Drive - David Lynch, 2001


47-Fale com ela - Pedro Almodóvar, 2002


48-Cidade de Deus - Fernando Meirelles, 2002


49-Diários de motocicleta - Walter Salles Jr., 2004


50-Dogville - Lars von Trier, 2004

07 dezembro, 2005

Eu queria fazer um filme

Eu queria fazer um filme. Um filme inédito, mas que eu, em algum lugar, em algum tempo, já vi. O personagem principal é um; o ser humano. A trama é a essência humana, o mote é o amor. O conflito é meu conflito interno. O desfecho é a vida. Os efeitos especiais são os sentimentos humanos. Meus olhos e a câmera se misturarão. Minha mente, com imaginação, fará a edição. Os espectadores serão transformados, se tornarão melhores.



29 novembro, 2005

Rodrigueana

Ali deitado, pensei, Sou um personagem de Nelson Rodrigues. Eu era um jovem ordinário, que gostava de sair com os amigos, tomar cerveja, jogar sinuca e conversa fora. Até que conheci Helena, jovem folgosa, de porte mignon e cabelos bem pretos até o ombro. Foi paixão a primeira vista, ou antes, tesão. Ela era colega de trabalho do Odair. Direita, de família, mas botequeira como poucas. Era perfeita, salvo um pequeno detalhe, tinha um namorado. Um tipo alto, cabelo raspado, fala mansa e insuportavelmente simpático. Mauro também trabalhava com Odair, se conheceram no trabalho há pouco mais de um ano e já faziam planos de casar.

Não era do meu feitio, mas na noite em que fui apresentado a Helena, no boteco embaixo do escritório do Odair, passei todo tempo flertando com o olhar, sem que Mauro se apercebesse. Quando ele cruzava comigo o olhar eu sorria um tanto sem graça e ele numa simpatia desmedida, fazia um gesto como de continência. Ela se ria marota. E na despedida chegando no cangote da pequena, sentido o cheiro doce de seu perfume, misturado com meu próprio hálito de embriaguez sussurrei, Com uma pequena como você, fazia miséria, largava tudo e me casava. E me afastando disse em bom tom, Foi um prazer, nos vemos por aí. Ela chegando no outro lado, Domingo onze horas na porta lateral da igrejinha. E afastando-se disse alto, Igualmente. Com o Mauro a despida foi um aperto de mãos, dois tapinhas no peito e um comentário, Olha, ouvi dizer que na sinuca você é o maioral, depois quero umas dicas, porque nem do Odair estou ganhando ultimamente, Quando quiser, ganhar do Odair é comigo mesmo.

Passei o sábado prostrado na cama, pensando na vida como ela é… E relembrando aquelas velhas histórias que têm mais de realidade que a própria vida, conclui, Nesse tipo de situação o sujeito sempre acaba matando o outro ou sendo morto pelo mesmo. Morrer tão novo eu não queria, por nenhuma pequena que fosse. Matar um cara bacana como o Mauro parecia o fim para mim. Estava numa sinuca de bico. Não fui à igreja domingo, fui ao boteco beber para olvidar. E na mesa de sinuca estava Mauro sorridente e falastrão, me vendo declarou, Opa, é hoje que vou ter umas dicas do Rui Chapéu aqui, e me chamou com um gesto largo. Chegando perto lhe bati no ombro três vezes e disse, Quer uma dica? Ao invés de vir jogar sinuca aos domingos, vá à igreja com sua pequena, ou você termina acaçapado. Virei de uma vez e a passos largos fui me embora da minha aventura rodrigueana.






Leonardo de Oliveira Cunha  20/06/05

23 novembro, 2005

Todo dia

Todo dia, não falhava um. Acordava escolhia uma galinha das que viviam no quintal nos fundos da casa e a matava, com um certeiro e profundo corte no pescoço pelado. O sangue vermelho e caldolento escorria e preenchia uma bacia azul de plástico. Seguiam-se todos os procedimentos de preparo de uma galinha. Quando a dita estava no ponto de ser posta na panela, ele a guarda no pequeno freezer horizontal que congestionava a pequena cozinha/copa. Estando tudo em ordem, voltava ao quintal agora para alimentar as galinhas sobreviventes. As sete horas da manhã, João, esse era seu nome, ia trabalhar. Não importa o que fazia, era mais um João trabalhando para um patrão, nesta forma capitalista de escravidão. Voltava a noite, só então via o filho e a mulher. Amava muito os dois, mas a mulher vivia desolada, pois na verdade sonhava em ser madame e viver uma vida de revista de fofocas. E o filho no seu universo de colégio e futebol via o pai como um estranho conhecido, que o beijava a testa cada noite e dormia com sua mãe. João seguia sua rotina de segunda a sexta sem reclamar. E no sábado pela manhã depois de repetir seu ritual quase religioso não punha o animal recém sacrificado no freezer e sim recolhia os outros seis que estavam ali os deixava sobre a pia degelando. Enquanto isso pegava uma desproporcional panela, a posicionava no fogão de lenha construído por ele mesmo. Colhia no quintal alguns vegetais providenciais. E fazia por toda a manhã uma bela galinhada. Quando tudo estava pronto, fumegante, e fragrante, servia pequenas porções em vasilhas descartáveis as quais ganhava mensalmente de uma empresa de embalagens. Saia então no seu carro precário em busca dos necessitados e com um misto de tristeza e satisfação oferecia o alimento àqueles que recebiam com a ânsia dos famintos. Em meia hora estava tudo consumado e consumido. No domingo depois de guardar a ave no freezer vazio ia à missa. Rezava a Deus para que desse pão aos que têm fome e fome de justiça aos que têm pão. Ou por outra, que desse galinha a quem têm fome e pena a quem têm galinha.

 Leonardo de Oliveira Cunha 

31/05/2005