22 junho, 2007

100 anos... 100 filmes, 10 anos depois


O AFI (American Film Institute) divulgou sua nova lista de melhores filmes americanos de todos os tempos. Incrível que já tenha quase dez anos que eu acompanho esta lista. Quando tive o primeiro contato com a lista anterior tinha assistido a trinta e poucos dos 100, hoje cheguei aos 78. Desta lista atual já vi 80 títulos. É uma lista conservadora e permeada por interesses comerciais, mas a gente se diverte, e acaba conhecendo coisas boas.

Sobre as novas entradas na lista, muitos dos antigos não vi, mas "12 Angry Men" (Doze homens e uma sentença), "Who's Afraid of Virginia Woolf?" (Quem tem medo de Virginia Woof?) e "Spartacus" demorou! Dos pós-1998, discordo de quase todos, talvez "O Senhor dos Anéis : A sociedade do anel" merecesse sim, mas e as outras duas partes? Difícil avaliar um filme de três partes.

Who's Afraid of Virginia Woolf?SpartacusThe Lord of the Rings - The Fellowship of the Ring

Acho uma pena terem saído da lista "All quiet on the western front" (Sem novidades no Front) um excelente filme de guerra de 1930, "Fargo" outro dia revi e gostei muito mais que da primeira vez, "Frankenstein" sempre um clássico, "Stagecoach"(No tempo das diligências) - um marco de John Ford, com a consolação de "The Searches" (Rastro de ódio) outro western de Ford ter subido 84 posições. Saiu "A place in the sun" (Um lugar ao sol) adaptação de
George Stevens para o clássico de Murnau "Sunrise"(Aurora) que entrou agora. Stevens também ficou de fora com "Giant" (Assim Caminha a Humanidade), com James Dean, ator que ficou fora com outro filme seu "Rebel without a cause"(Juventutde Transviada). Outro que dançou foi Frank Sinatra, o old blue eyes teve seus dois filmes eliminados, "From here to eternity" (A um passo da eternidade), "The Manchurian Candidate"(Sob o domínio do mal).



















Dos meus favoritos "The Graduate" (A Primeira Noite de homem) saiu do top 10, mas em compensação "Raging Bull" (Touro Indomável) subiu 20 posições e ficou em quarto, desbancando o chato "Gone with the wind"(E o vento levou). Charlie Chaplin finalmente teve vez com seu belíssimo "City Lights"(Luzes da Cidade) subindo 65 posições e quase fazendo o top 10. E "The Godfather" (O Poderoso Chefão) ficou em segundo, afinal "Citizen Kane" (Cidadão Kane) é mesmo imbatível.

15 junho, 2007

Pequenas Lembranças #5

Cheiro

Um dos cheiros mais marcantes da minha infância é o que exalava de uma planta que havia na casa da minha avó paterna, numa varandinha do seu apartamento no Cruzeiro. Não sei que planta é, que nome lhe dão. Lembro que era de um verde escuro, e a folhas tinham um aveludado curioso para uma criança.

Fato que é que estas coisas estão coladas, o cheiro da planta, a casa da vovó, minha infância.

08 junho, 2007

Pequenas Lembranças #4

Xixi

Quando era pequenino, não sei se por um senso prático (o que se aproxima muito de preguiça) ou o quê, gostava de fazer xixi num ralinho que havia na área de serviço do apartamento (a bem da verdade era o mesmo cômodo que a cozinha). Na minha cabeça não fazia a menor diferença, o xixi ia para o esgoto do mesmo jeito. Ainda ficava orgulhoso por não ter respingado nada para fora do ralo, o que era facilitado por minha baixa estatura.

Minha mãe, claro, não gostava da idéia. Depois, passei a fazer meu xixi no bidê, gostava também de mirar bem no ralinho. Parece que eu não gostava mesmo de dar descarga, ou levantar a tampa do vaso, qualquer coisa que dificultasse o processo. Talvez já fosse um senso de economia, já que hoje acho um absurdo o tanto de água tratada que se gasta em descargas por aí.

Um dia, já estava ficando maiorzinho, fiz uma promessa se não me engano a Nossa Senhora, de que não faria mais xixi no bidê. Foi a única maneira de cortar esse meu curioso hábito.

06 junho, 2007

Série séries #5

Jornadas nas Estrelas "Star Trek"

Esta é uma série genial. Foram apenas três temporadas, e o sucesso mesmo só veio com as reprises. Hoje Jornadas nas Estrelas faz parte do imaginário social mundial.

A cada episódio vivíamos junto com a tripulação da Enterprise uma aventura diferente, indo aonde nem homem jamais esteve. As aventuras eram narrativamente muito bem amarrados, e cativantes, com todos os elementos que viriam a influenciar produtores nos anos vindouros.A série criada por Gene Roddenberry deu origem a uma legião de aficcionados, a mais de um dezena de filmes para o cinema, e um bocado de séries spin-offs.

Tem ainda o detalhe de que nesta série ocurreu o primeiro beijo interracial da TV americana, entre Uhura e Kirk.


Assisti a Star Trek numa época muito gostosa da minha vida, logo antes da faculdade, quando ficava em casa durante o dia, e podia ver as reprises na Band, as onze da manhã.
Como não se apaixonar por senhor Spock, doutor McCoy, capitão Kirk...

Pequenas Lembranças #3

O Prédio

No prédio onde morávamos no Barroca, na Rua Amparo, havia muitas crianças. E meus vizinhos vinham bater na minha porta, me chamar para brincar. Não me lembro de alguma vez ir eu mesmo chama-los. Muitas vezes ficava feliz com o convite, mas às vezes ficava com preguiça. Perguntava a minha mãe se podia, poucas vezes ela negava. Nosso playground era a área de manobra da garagem do prédio. Não lembro bem do que brincávamos, sei que pique-pega era um dos favoritos, e jogos com bola eram mais raros. Tínhamos um vizinho de muro, onde a bola sempre caia, era uma luta recuperá-la. Ainda não entendo tamanha impaciência com bolas extraviadas. Minha vó contava histórias medonhas de tempos remotos em que o vizinho intolerante furava a bola com uma faca diante dos olhos atônitos dos meninos.

Outra vedete eram os bonequinhos do He-Man e sua galeria de vilões e aliados. Tínhamos também espadas, dos ThunderCats e do He-Man, com as quais travávamos batalhas das quais não gostava muito. Lembro de pelo menos uma vez ir brincar no prédio em frente ao nosso.

Fazíamos nossas festas de aniversário também na garagem, todos os moradores tiravam seus carros e decorávamos o lugar para receber os convidados. Hoje em tempos de individualismo exacerbado, acho que tal coisa deve acontecer menos e menos.

Mudei deste prédio aos 7 anos, já com dois irmãos.

05 junho, 2007

Pequenas Lembranças #2

Sorvetinho

Da minha primeira escola pouco lembro, ficava mais embaixo na minha rua mesmo a Amparo. Lembro ter dificuldade com seu nome, sempre confundia com Sovertinho, algo que acabo de constatar, ainda me acontece. Uma leve dislexia (a exemplo de Saramago) sempre me perseguiu. Quando criança dizia Mánica, ao me referir às maquinas, e caçapete ao referir ao equipamento de segurança. Não consta que fizesse o erro clássico de chamar aquela praga dos cinemas de popica. Depois da alfabetização passei a confundir “V” com “F” amiúde, até hoje me acontece de quando em vez e tenho que pensar em palavras óbvias como FACA e VACA ou FOGO, etc. Às vezes acontece com T e D, e outras letras também.

Foi no Sorvetinho com meu uniforme azul claro axadrezado, e quichute(?) amarrado canela acima, que tive minhas primeiras aulas, mas devo dizer que não recordo de nem um momento dentro da sala de aula. Lembro sim do pátio externo, uma garagem que com segurança é muito menor que minhas lembranças. Ali havia um espaço que lembrava uma caverna e o era na imaginação das crianças, o tanque de areia, brincadeira recorrente, alguns brinquedos clássicos (balanço com certeza, escorregador por intuição).

No terraço me lembro de dançar quadrilha, e de estalar a língua reproduzindo os movimentos dos dedos, uma vez que não consegui tirar nenhum som deles como pedia a coreografia. Outro dia memorável era o de banho de mangueira, sempre aguardado com ansiedade. Levávamos calção de nadar e toalha e nos divertíamos.

Ali conheci a Marina, como prova a fotografia carnavalesca, claro que não me lembro, e só uma série de eventos futuros pôde transformar este fato em uma coincidência. Mais ou menos quinze anos depois viemos a ser colegas na escola de Teatro e nos tornamos amigos, encontrando mais tarde provas deste encontro prévio. Além da foto, um presente que ela me dera, com dedicatória assassinada, evidentemente na caligrafia de sua mãe.

04 junho, 2007

Série séries #4

Sliders - Dimensões paralelas

Mais uma série que passava no USA, no sábado Sci-Fi. Era bem legal, com histórias em realidades paralelas. No elenco tinha o Jerry O'Connel, fazendo o Quinn Mallory, que ameaçou estourar como astro mas não vingou. Ele foi ator mirim, participou do "Conte Comigo (stand by me)" com o River Phoenix e tal.

A série foi mais uma das que começou legal e depois se perdeu, assisti só às primeiras temporadas mesmo. Outro dia revi o piloto e é realmente bem interessante.

Pequenas Lembranças #1

Choro

Não sei precisar qual é minha lembrança mais antiga. No correr dos anos acabamos por recordar, com certa acuidade, de fatos banais, sem, contudo, guardarmos registros de eventos julgados importantes.

Obviamente, não me lembro do meu nascimento, nem de meus primeiríssimos anos neste mundo. Todavia, sempre fez parte de minha vida os relatos deste período, em que eu, sem explicação definitiva, chorei como poucas crianças o fizeram.

Nasci num dia 13 de maio, uma quarta-feira, às 15:50, depois de fazer minha mãe sofrer em demorado trabalho de parto. Foi no Hospital São Lucas, na região hospitalar de Belo Horizonte. Minha primeira residência foi num apartamento de três quartos na Rua Amparo (belo nome), foi pra lá que fui e lá que chorei todas as noites por anos (!) a fio.

No primeiro mês, esteve em nossa casa, minha avó materna, que vive no interior. Cabe dizer que sou o primogênito, assim como meu pai e minha mãe, sou então o primeiro neto de ambos os lados da família. Ao cabo do mês de assistência, retornando para Divinópolis, chorava minha vó, choravam minha mãe e meu pai, e claro chorava eu.

Uma noite estava eu quieto no bercinho ao lado da cama de meus pais. Tamanha a estranheza da situação que minha mãe ficou desconfiada. Receosa de que algo trágico houvera sucedido pediu a meu pai que verificasse se estava tudo bem com o pequeno ser. Pois no escuro do quarto e no torpor do sono, meu progenitor dá uma topada com o pé no pequeno berço, pondo-me a chorar até o raiar do dia.

Muitos casos ainda constam de meus choros intermináveis e inexplicáveis. E nos anos seguintes, cada nova pessoa que entrava em nossa vida, tinha por obrigação de ouvir as histórias, que pareciam inverossímeis, de um bebê inquieto que se convertera em uma criança tão calma. Reza a lenda que só parei de chorar quando comecei a freqüentar o jardim de infância.

Nova série de postagens

Inspirado pelo mestre Saramago e seu “As pequenas memórias”, resolvi iniciar aqui uma série de textos sobre meus primeiros anos de vida. Não sou saudosista da minha infância, nem tive uma que fosse extraordinária em nenhum aspecto. Lendo as memórias de José Saramago, simplesmente Zezito à época, descobri que lembro bastante coisa destes meus primeiros anos. E escrevo sobre eles neste espaço, mais para mim que para os outros.

31 maio, 2007

Série séries #3

Early Editon

"O que você faria se soubesse sem dúvidas o que acontecerá amanhã?" Essa era a pergunta que abria cada episódio de Early Edition.
Gary Hobson (Kyle Chandler) recebe toda manhã o jornal do dia seguinte, daí assume a postura de herói e começa a correria para tentar evitar que tragédias noticiadas aconteçam de fato.

Assiste à série em 1997, 1998. A primeira temporada foi muito boa, com ação em cada episódio, além do drama do personagem principal, circundados pelo grande mistério de onde surge o jornal. Depois se perdeu um pouco, e não cheguei a ver até o final pra saber se tivemos a resposta do grande mistério.

Pela primeira vez vi que uma série de TV pode ser muito melhor que muito filme que soltam por aí. A série chegou a ser exibida aqui, pela Record, com o nome de "Edição de Amanhã". Continuo achando o Kyle Chandler um bom ator, ele faz o ator afetado no novo King Kong, e muito carismático em cena. E o Fisher Stevens é engraçado no seu tipo de humor específico.

30 maio, 2007

Série séries #2


Sonhando Acordado "Dream on"

Esta série era exibida no antigo canal USA, produzida pela HBO. Foi criado por David Crane e Marta Kauffman, sim os mesmos Friends.

É uma sitcom, sobre Martin Tupper um cara que cresceu vendo TV, e então seu pensamento e pautado por imagens clássicas de programas televisivos. Tem um texto muito bom e um trabalho de pesquisa e edição fantásticos. Durou seis temporadas na HBO americana, e por ser em TV fechada tinha cenas de nudez e linguajar "inapropriado", teve uma temporada exibida na FOX (TV Aberta), editada.

Assisti muito essa série em 1995, 1996 com o pesar de que era transmitida dublada no Brasil.

29 maio, 2007

Série séries

Sou muito crítico à televisão hoje em dia, principalmente os canais abertos brasileiros. Mas na minha vida já vi muita televisão, e muito "enlatado" americano, que afora preconceitos são as melhores coisas que a TV de entretenimento tem produzido nestes últimos 50 anos.

Vou falar um pouquinho de cada série que acompanhei com mais afinco até hoje.

Para começar: Anos Incríveis "The Wonder Years"

Tinha lá meus treze anos em 1994, e a série passava no TV Cultura, alguns amigos acompanhavam e eu não tinha muita disposição de assistir (Eu via mais "Confissões de Adolescente").

Comecei a acompanhar mais quando passou a ser transmitido pela Band e quando adquiri o Multishow. Creio que vi então todos os episódios.


Acompanhei Kevin Arnold crescendo e vivendo fases muito parelhas à minha própria vivência.
Uma série absolutamente marcante, com um final digno, e ainda me ajudou a aprender inglês.

23 abril, 2007

Oração a São Jorge

Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam, e nem em pensamentos eles possam me fazer mal.

Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar.

Jesus Cristo, me proteja e me defenda com o poder de sua santa e divina graça, Virgem de Nazaré, me cubra com o seu manto sagrado e divino, protegendo-me em todas as minhas dores e aflições, e Deus, com sua divina misericórdia e grande poder, seja meu defensor contra as maldades e perseguições dos meu inimigos.

Glorioso São Jorge, em nome de Deus, estenda-me o seu escudo e as suas poderosas armas, defendendo-me com a sua força e com a sua grandeza, e que debaixo das patas de seu fiel ginete meus inimigos fiquem humildes e submissos a vós. Assim seja com o poder de Deus, de Jesus e da falange do Divino Espírito Santo.

São Jorge Rogai por Nós.

Verdade arde
não se apaga
mas algo haverá que a pague

18 abril, 2007

Saramago e eu

"Porquê este meu temor aos cães?[...]
O receio, que hoje ainda, apesar de algumas harmoniosas experiências vividas nos últimos tempos, mal consigo dominar quando me vejo perante um representante desconhecido da espécie canina[...]"


José Saramago em As Pequenas Memórias

12 abril, 2007

Mais sobre "Batismo de Sangue"

"A arte brasileira se adianta ao governo e escancara os bastidores da ditadura. Este é um filme a ser visto especialmente por quem não viveu os anos de chumbo. Ali está o estupro da mãe gentil, gigante entorpecido, o Brasil sem margens plácidas, arrancado do berço esplêndido, resgatado à democracia pelos filhos que, por amor e esperança, e sem temer a própria, não fugiram à luta.
Batismo de Sangue é um hino à liberdade."
Frei Betto

22 março, 2007

14 março, 2007

O que quero para mim: o último jardim onde não há mais jasmim, e o jardineiro vive tão só como o faroleiro, mas é feliz mesmo assim.

08 março, 2007

"No andar de cima, o Brasil precisa de reforma política; no de baixo, da reforma agrária. Fora disso, o resto é palavrório eleitoreiro, pura engabelação para iludir os incautos."
Frei Betto

27 fevereiro, 2007

Sobre o Oscar

Diferente da maioria das pessoas, gosto de assistir à cerimônia de entrega dos Oscars. Ela é sempre longa e cheia de momentos aborrecidos, mesmo assim me divirto. Há sempre momentos que valem à pena, este ano não houve muitos, contudo.

Foi bacana e caprichado os números de luz e sombra representando os filmes.

O discurso do fotografo (me parece que ele é argentino) de “O Labirinto do Fauno” (bom ver a consagração do filme com três prêmios) foi emocionado e valeu, embora torcesse por “Filhos da Esperança”.

Muito bonitinha a Abigail Breslin de “Pequena Miss Sunshine” na platéia.

Gostei de Alan Arkins ter levado e não Eddie Murphy como se esperava.

Tocante o momento em que a montadora Thelma Schoonmaker foi receber o prêmio por “Os Infiltrados” e da platéia vimos Martin Scorsese em lágrimas.

O discurso do Forest Whittaker sobre a arte do ator foi bonito, embora piegas ao remeter à sua infância.

Enio Morricone, um monstro da Trilha Sonora (“The good, the Bad, the Ugly” é impagável, servindo até de abertura para os shows dos Ramones), premiado pelo conjunto da obra, discursou em italiano, muito legal!

Há um tempo venho notando que os filmes que levam os prêmios de roteiro (original, adaptado), são de fato os filmes mais interessantes do ano (nem sempre são os que levam melhor filme). Com isso foi ótima a conquista de roteiro original pelo inteligente, tocante e engraçado “Pequena Miss Sunshine”. Já em roteiro adaptado me decepcionei com a premiação de “Os Infiltrados” que primeiro: viria a ganhar também melhor filme, e segundo: foi adaptado de um outro roteiro o que parece tarefa mais simples que adaptar um livro ou peça. Preferia ter visto “Filhos da Esperança” ou “Pecados Íntimos” saindo com o Oscar.

Por fim três figuras icônicas do cinema norte-americano (Coppola, Lucas, Spielberg) entregando o Oscar para Scorsese (para mim o melhor). E a Diane Keaton ao lado do careca Jack Nicholson (será que ele vai entregar melhor filme todo ano agora) consagrando “Os Infiltrados”, meu preferido dentre os cinco, junto de “Pequena Miss Sunshine”, que na verdade não tinha banca para levar o prêmio.

09 fevereiro, 2007

Quando secar o rio da minha infância

secará toda dor.

Quando os regatos límpidos de meu ser secarem

minh'alma perderá sua força.

Buscarei, então, pastagens distantes

– lá onde o ódio não tem teto para repousar.

Ali erguerei uma tenda junto aos bosques.

Todas as tardes me deitarei na relva

e nos dias silenciosos farei minha oração.

Meu eterno canto de amor:

expressão pura de minha mais profunda angústia.


Nos dias primaveris, colherei flores

para meu jardim da saudade.

Assim, exterminarei a lembrança de um passado sombrio."

Frei Tito – Paris, 12 de outubro de 1972

malvados

02 fevereiro, 2007

Sobre Tiradentes

Não. Não boicotei a 10ª. Mostra de Cinema de Tiradentes. Fui até lá, fiz uma oficina com Joel Pizzini, que foi muitíssimo válida. Ele é um profissional e tanto, tem um ótimo trabalho, muito sensível e peculiar, subvertendo o documentário tradicional. Uma oficina tão boa quanto a que fiz ano passado – Roteiro, com Di Moretti. Bom saber que o Brasil tem bons profissionais, ainda desconhecidos e mal pagos.

A Mostra de vídeos foi bastante irregular, a bloco de ficção que vi foi bem fraco, parecia querer abarcar realizadores de diversos estados, resultando confusa e mal programada. Os blocos de vídeos experimentais são bem difíceis para o público geral, e foi quando mais vimos produções de Minas.

Pela primeira vez foi permitida a exibição de longas-metragens finalizados em vídeo, o que é bom, mas abre espaço para produções um tanto herméticas para um Mostra de caráter popular com a de Tiradentes. “Cartola” foi exibido em BetaCam, com sérios problemas de áudio, o que levou o documentário a ser re-exibido em horário alternativo.

O Cine-Praça só aconteceu no meu último dia lá, com a exibição de “Antônia”, e pelo que sei a chuva só permitiu, antes, a projeção do vencedor do júri popular “Noel, o Poeta da Vila”. Outro ponto negativo foi a cerimônia que pretendia homenagear os artistas da década. Foi, segundo li, um evento longo e constrangedor, que igualou os artistas homenageados a políticos e patrocinadores, os verdadeiros bajulados pela produção.

O ponto alto ficou mesmo por conta de “Batismo de Sangue”. Desde o bate-papo antes da exibição, ficou clara a importância histórica, humana, artística do filme. A presença e os depoimentos dos Freis e de parte do elenco e equipe foram tocantes. Na sessão lotada o público foi contemplado com um filme belo, correto e transformador. Acredito que um filme – como toda obra de arte – só pode ser tocante e transformador na medida em que o artista que o executa seja transformado no processo. O que é patente nesta obra.

22 janeiro, 2007

II

O avô conheceu a avó na feira da cidadezinha onde ela nasceu e aonde ele foi à procura de mercado para suas figuras de madeira então restritas a pequenos macacos, ora num galho, ora não. Ela vendia suas prendices para ajudar em casa. Ele conseguiu um lugar para expor pagando caro a um velho poderoso da região, desfez sua poupança apostando que conseguiria fazer outra maior. Apostou e ganhou, em menos de um ano era o artesão mais prestigiado da região. Com o tempo, passou a fazer gatos e pássaros e jacarés e onças, e qualquer tipo de animal que lhe encomendassem. Casou-se com a esperança de ter um filho homem. Teve sorte, o primogênito foi um varão, e seria o único. Morreu de repente, abraçado a um leão semi-acabado. Seu filho tinha somente dois anos e foi o primeiro a encontrá-lo ali, pensaria que o pai estava tentando domar o leão selvagem, mas ainda era muito novo para tanta imaginação.

19 janeiro, 2007

I

Era uma família de artistas.

O avô era um artesão que talhava na madeira animais em paisagens inverossímeis. A avó faz tricô desde os dez anos de idade, borda desde os dozes, hoje completa a pensão deixada pelo marido fazendo barras de crochê em panos de prato e toalhas. O pai, filho único, é um pintor de cores, de pessoas sem rosto, mas cheias de personalidade, de um realismo que beira o abstrato. Casou com uma dançarina, a mãe, que depois de parir o sétimo filho foi-se embora para a Espanha com um dançarino de flamenco com quem faz apresentações pelas ruas de Sevilha.

Hoje vivem os nove numa casa que apenas comporta suas artes.

7 - E&G


A manhã estava clara e promissora, a família toda animada para a festa. Cada um tinha
seu motivo próprio. D. Nena, a avó estava ansiosa por ver mais um neto
experimentar pela primeira vez o corpo de Cristo. Jonas, o pai sempre se
esbalda nestas festas de família, adora ver os primos, azucrinar os cunhados,
atiçar as meninas. Nívea, a mãe que preparara com esmero a festa esperava a
repercussão do evento. Lucas que freqüentou por dois anos o catecismo, para
preparar-se para esse momento da primeira Eucaristia,
não sabia o que esperar, nem bem se importava, tinha preguiça de ter de receber
tantos comprimentos de gente que ia dizer: olha como cresceu; ficou a cara da
mãe; é o pai escrito; já é um homenzinho. Mas nenhum desses personagens será o
alvo das atenções dessa história, nem serão eles os para sempre lembrados nas
reuniões vindouras e até em outros círculos onde sempre há um que conhece
alguém que estava ali naquele domingo de sol.


A cerimônia correu em sua naturalidade, gente contando piada do lado de fora da igreja,
gente chorando, um bando de meninos cantando desafinados. E depois dali toda a
família e amigos rumaram para a casa de campo de Jonas. O ambiente estava
diferente do usual, com trigos por toda parte, cruzes e anjos que davam um ar
mais sacro ao local. Mas o que estava para acontecer era muito mais profano que
sagrado, mais vicioso que virtuoso. Até o meio-dia nada de anormal, foi aí que
Nívea começa a chamar os convidados para o almoço, a mesa estava bonita e
apetitosa, pratos para todos os gostos. Como era comum, os mais idosos se
sentaram e se serviram primeiro, seguidos logo pelas crianças, os jovens não
pensavam em almoçar e os adultos não deixariam a cerveja pelo jantar tão cedo.
Mas havia uma exceção, um sobrinho de Jonas, o que não era de se estranhar,
pois com seus 16 anos de idade já pesava 120kg. Mantê-los não deve ser fácil.
Pois o rapaz se sentou ali e começou com uma discreta salada, o que não
causaria espanto em quem o conhecesse, pois seguro que ele não ficaria só
nisso. Dito e feito logo comeu dos pães dos quais havia toda sorte, servidos
com toda a variedade de patês. Isso acompanhado de refrigerante, às vezes suco.
E as pessoas se sentavam, comiam, se levantavam e ele continuava ali, comendo
como quem começara agora. E comeu da picanha, da massa, strogonoff de carne, de
frango. Por vezes voltava à picanha ou à galinha. Não era muito notado, de quando
em quando passava uma velha e dizia: ô beleza! Dá gosto de ver esse menino
comendo. Um homem obeso perguntava: o que você recomenda garoto? E ele não
parava e a comida não faltava, as festa de Jonas e Nívea eram famosas pela
fartura. Até que os adultos em elevado grau de embriaguez finalmente resolveram
almoçar ou jantar se preferirem dado o avançado das horas. E o garoto, pelos
olhos dos homens, estava ali para comer pela primeira vez, pela única como
diria a lógica. Até o último bebum comeu, o suficiente para curar a bebedeira,
e bateu nos ombros do garoto: Você come muito devagar! Sem se dar conta de que
no tempo em que ele comia sua canja de galinha o garoto tinha comido três vezes
mais. Foi só então que se notou que algo estranho acontecia, a empregada já
queria limpar a mesa, guardar as sobras na geladeira, e o rapaz lhe pediu que
deixasse que ele terminaria com o resto. Uma tia interveio: Mas você não vai
dar conta, e não precisa amanhã a gente dá pro caseiro. O garoto só respondeu
abraçando a travessa de lasagna. Daí começam os cochichos: ele já está comendo
há duas horas. Que nada, há mais tempo! Será que ele não tem comida em casa!
Tem de ter, né, senão não seria tão gordo. Gordo não obeso, retrucou uma tia
acima do peso. E quando toda a atenção se voltou para os rumores e o garoto foi
esquecido, ouviu-se um barulho, que mais tarde ia ser caracterizado como: um
vulcão em erupção; mar em dia de ressaca; a pororoca do São Francisco, mas
nenhum fenômeno da natureza foi tão assombroso para aquela gente quanto o que
se viu ali. Aquela montanha de gordura e banha jazia ao lado da mesa. De pronto
uns homens se arriscaram a tentar levanta-lo, em vão. O rosto estava virado
para o chão e na mão segurava uma coxa de galinha, escorria uma poça de um
líquido que alguns mais desesperados pensavam ser sangue, mas não passava de
Coca-Cola. Alguns gritavam seu nome, qual era seu nome não importa, as lendas
não precisam de nomes, são chamadas do modo que queira quem conte a história. O
que passou depois disso ninguém sabe ao certo, o boca a boca criou diferentes
versões, cada um aumentava um ponto como deve um bom contador de histórias, e
disso eu não me redimo. Alguns dizem que ele morreu e foi preciso chamar os
bombeiros para leva-lo à funerária. Os mais simplórios dizem que foi congestão,
outros dizem que ele vomitou toda aquela comida, que era tanta que o pulmão não
agüentou o esforço. Seus seguidores falam que ele engasgou com o osso de
galinha, que comida ele agüentava muito mais. Uma versão mais bizarra, mas que,
entretanto conta com muitos adeptos, diz que ele foi levado para casa e acordou
um tempo depois, contudo tomado pela vergonha não quis sair dali e passou a não
suportar mais nem ver comida, com isso foi emagrecendo, tanto ao ponto de
morrer anorexo.




O fato foi que nunca mais houve uma festa de Jonas e Nívea, que nunca tocaram no assunto. Tentaram vender a casa de campo, mas não se encontrava pretendente na região.
Lucas nunca mais foi à Igreja, nem para casar. Mas essa história estava sempre
na boca dos Padres que nas predicas a usavam para mostrar como o pecado da Gula pode ser danoso.

11 janeiro, 2007

Mostra Tiradentes anti-minas

Estamos próximos do início da 10a. Mostra de cinema de Tiradentes. É um evento gostoso, que acontece há dez anos na charmosa cidade mineira de Tiradentes. Apenas ano passado participei do evento fazendo uma oficina de roteiro, e assistindo a alguns filmes. Este ano tentei pela segunda vez exibir um vídeo meu na mostra, sem sucesso. É patente a pouca atenção dos produtores da mostra com a produção audiovisual mineira. Pouquíssimos são os filmes mineiros selecionados, e não há como costuma-se ver em festivais pelo país uma mostra especial para realizadores do estado.
Fora isso já ouvi críticas de profissionais da área quanto à predileção dos organizadores por ilustres desconhecidos de outros estados sobre os profissionais de Minas Gerais. Agora Pablo Villaça do Cinema em Cena divulgou em seu blog um email (que transcrevo abaixo) enviado a organização da mostra de Tiradentes, reclamando da falta de críticos mineiros no evento.
Façamos o que possamos para ter um evento de cinema mais digno de nosso Estado, afinal a Mostra é bancada por dinheiro público proveniente de leis de incentivo a cultura de Minas Gerais.

"Prezados,

recebi, com a tristeza habitual, a programação da 10a. Mostra de Tiradentes e constatei que, mais uma vez, o evento exibe a costumeira mentalidade de colônia ao convidar profissionais da Crítica de outros Estados, ignorando completamente a "prata da casa". Não vi espaço para profissionais como Fábio Leite, Paulo Henrique Silva, Silvana Mascagna, Marcelo Castilho, Mariana Peixoto, Carlos Quintão, entre outros, na programação de debates e afins - exatamente como ocorreu no ano passado, quando as "mesas-redonda" sobre Crítica incluíram profissionais praticamente desconhecidos de outros Estados e, como sempre, fizeram pouco de jornalistas e críticos consagrados de Minas Gerais.

(E não, não falo em defesa própria. Como crítico radicado quase que com exclusividade na Internet, estou mais do que acostumado ao preconceito com que a "Nova Mídia" é tratada e, portanto, sei que minha luta particular ainda levará alguns anos. O que me incomoda, neste momento, é o descaso que um evento produzido e realizado em Minas Gerais demonstra para com profissionais de Cinema de seu próprio Estado.)

Assim sendo, retiro o pedido de credenciamento para a 10. Mostra de Tiradentes e informo que o Cinema em Cena (que é, hoje, um dos principais sites do gênero da Internet brasileira, com mais de 800 mil leitores únicos por mês e mais de 10 milhões de pageviews mensais) não dedicará uma linha sequer ao evento enquanto este mantiver sua atitude preconceituosa para com os colegas baseados em Minas Gerais.

Um protesto isolado e sem maiores significados? Talvez. Mas temos que começar por algum lugar.

Sem mais para o momento, despeço-me.

(Obs: Cópias deste email estão sendo enviadas para diversos colegas, entre críticos e realizadores. E estes podem se sentir à vontade para repassá-lo para os demais amigos da área.)

Pablo Villaça
Editor Cinema em Cena (www.cinemaemcena.com.br)
Membro da Online Film Critics Society"

Update: Acabo de ler no Diário Oficial do Município de 9 de janeiro de 2007 que o Prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, recebeu os coordenadores da Mostra de Cinema de Tiradentes, Quintino Vargas e Raquel Hallak. Estes levaram a proposta de implantação de uma Mostra de Cinema de Belo Horizonte, com a intenção de divulgar as produções cinematográficas brasileiras e incentivar as produções mineiras. A expectativa, segundo o DOM, é de que a primeira edição aconteça ainda no primeiro semestre de 2007.
Serão estas as pessoas indicadas para produzir uma mostra de cinema em BH?

09 janeiro, 2007

Boicote a Cicarelli

Um absurdo todo esse caso Cicarelli vs. YouTube.
Que tal fecharem a Kodak devido a fotos indiscretas, ou bloquearem os correios por receber cartas difamantes.
Apoio e divulgo o Boicote a Cicarelli.

Update: A Mtv lançou um comunicado, apoiando a reação contra o fechamento do YouTube, mas repudiando o boicote à emissora. E esclarecendo que o processo partiu exclusivamente do Namorado de Daniela.

Update 2: Apesar de negativa, Cicarelli é autora de processo contra YouTube

28 dezembro, 2006

11 dezembro, 2006

Subúrbio, por Chico Buarque

Lá não figura no mapa. No avesso da montanha, é labirinto, é contra-senha, é cara a tapa.
Casas sem cor. Ruas de pó, cidade que não se pinta, que é sem vaidade.
Lá não tem moças douradas expostas, andam nus pelas quebradas teus exus.
Não tem turistas. Não sai foto nas revistas.
Lá tem Jesus. E está de costas!


Espalha a tua voz nos arredores, carrega a tua cruz e os teus tambores. Vai, faz ouvir os acordes do choro-canção. Traz as cabrochas e a roda de samba. Dança teu funk, o rock, forró, pagode, reggae, teu hip-hop, fala na língua do rap.
Fala no pé, dá uma idéia naquela que te sombreia.
Desbanca a outra, a tal que abusa de ser tão maravilhosa.

Lá não tem claro-escuro, a luz é dura, a chapa é quente.
Que futuro tem aquela gente toda?
Perdido em ti eu ando em roda.
É pau, é pedra, é fim de linha.
É lenha, é fogo, é foda!

28 novembro, 2006

A Aventura de um acensorista

Antônio F. trabalhava num destes prédios públicos de arquitetura antiquada no centro da capital. Exercia uma função cada vez mais rara, era ascensorista, de uniforme com corda atravessada, luvas, quepe e tudo mais. O elevador antigo exigia trabalho, e só alguém com a experiência e a paciência de Antônio podia exercer aquela função. E além do mais tinha de lidar diariamente com as caras fechadas dos funcionários que entravam e saiam do seu elevador. Não muito diferente eram as outras pessoas que vinham ao departamento sempre buscando a resolução de problemas que nunca eram resolvidos.


Já tinha uma idade avançada para pensar numa mudança de carreira, nos seus planos próximos estava sim uma aposentadoria. Passaria a viver tranqüilamente, pescando na beira do rio da cidadezinha onde nasceu. Há muito não havia grandes emoções no seu trabalho, o qual fazia mecanicamente. Ao chegar tirava do armário o uniforme grená e dourado, trocava a roupa ordinária que vestia desde casa, botando depois cada peça no armário com cuidado para não amarrotar. Sentava no seu banquinho e geralmente esperava uns 15 minutos, sozinho naquele cubículo, até o primeiro grupo chegar para o trabalho diário, eram uns subordinados que trabalhavam no sexto andar. Os mais importantes trabalhavam nos andares mais altos e chegavam bem mais tarde (e saiam bem mais cedo), os funcionários mais inferiores trabalhavam nos primeiros andares, e chegavam mais ou menos na mesma hora que Antônio, mas não usavam o elevador, subiam de escada. Embora trabalhando há muitos anos ali, Antônio não mantinha um relacionamento mais intenso com nenhum funcionário. Isso se devia a sua personalidade, desde criança era muito ensimesmado, por vezes até desconfiado. Mas os poucos que tiveram a sorte de conhecê-lo a fundo, fizeram nele um bom amigo, fiel e companheiro. Nunca fora casado, uns namoricos aqui e ali na juventude e só.


Num dia que não parecia ter nada de diferente dos demais, exceto pelo fato de ter cortado o cabelo no dia anterior – o que fazia Antônio sentir-se particularmente de bem consigo mesmo – parou no térreo abriu a porta e disse:


– Sobe.


– 14, por favor. – e o pedido veio acompanhado de um perfume que lhe arrebatou a alma.


Levantou a cabeça, mas como a aba do quepe lhe diminuía o campo de visão só viu um belo par de pernas muito brancas e grossas, num vestido vermelho não tão justo mas o bastante para ver bem o desenho de quadris largos e meneantes. Ajeitou o quepe e viu seu rosto pela primeira vez, era uma dama de meia idade, morena e bela. Ela já tinha parado e se postado elegantemente, frente à porta mirando reto e segurando contra os seios fartos uma pequena bolsa de couro marrom. Já tinha visto várias mulheres interessantes nos seus anos como ascensorista, mas nada que se comparasse a ela.


Antônio seguiu a viagem, com três paradas até o décimo-quarto andar, com o corpo rijo, como se um líquido denso e gelado se espalhasse por cada vão de seu ventre, o coração palpitante e as mãos suando dentro das luvas brancas, encardidas e gastas pelo uso excessivo. Contudo a sensação era boa, como há tempos não experimentava. No décimo-quarto ela desceu sem dizer uma palavra, Antônio observou seu caminhar compassado até ela se perder à sua direita. Já chamavam o elevador embaixo, mas o ascensorista quedou ali alguns bons segundos, não pensando em nada e curtindo a sensação que a visão daquela mulher lhe propiciara.


Então, cada vez que chamavam o elevador Antônio esperava ansioso que fosse para o décimo-quarto andar. Não demorou muito, ela desceu poucos minutos depois, veio acompanhada de dois senhores de terno, só eles falavam, ela parecia desinteressada. Antônio não prestou atenção em uma palavra do que diziam, se concentrou na mulher que tinha o olhar parado em um ponto indefinido, o que dava a ela uma força que fazia tremer o corpo de Antônio. Saiu entre os dois homens, mais uma vez em silêncio.


O resto do dia Antônio passou avoado, por vezes lembrando do som caudaloso da voz da mulher, ora sentindo na sua mente o cheiro que lhe causava tão boa sensação. Ao fim do expediente Antônio F. seguiu para sua pequena casa num bairro antigo da capital, com sua roupa pouco adequada ao frio que começava a fazer, mas pouco importava, o caminho nunca lhe pareceu tão iluminado, tudo tinha uma cor diferente, se perdia observando as coisas ao redor e não teve tempo para sentir frio.


Deitado na cama de barriga para cima quis dormir e não conseguiu, queria sonhar com ela. Por fim conseguiu adormecer, mas ao despertar constatou não sem ressentimento que a mulher do 14 não tinha participado dos seus sonhos. Foi para o trabalho, esperançoso de voltar a vê-la. Tentava manter o sentimento do dia anterior, não foi tão fácil, a realidade fazia esvair sua plenitude. Neste dia não a viu, nem no seguinte, nem no outro. Diminuía em si o fogo ascendido por aquela singular dama. Não chegou a comentar com ninguém sobre o que passou, pensava que palavras não seriam fiéis, nem à mulher, nem a seu sentimento. Passou o fim de semana. E a vida de Antônio voltava aos poucos ao seu ritmo monótono costumeiro.


Foi na outra quarta-feira, distraído no seu banquinho, a esperar no térreo, de portas abertas, que alguém quisesse subir, que Antônio a viu no começo do hall. Vestia agora azul, mas não restava dúvida, era ela. Desta vez Antônio sentiu primeiro o perfume, que bastou para acionar toda complexa gama de sentimentos que procurou retomar por toda a semana.


– 14, por favor. – e sua voz parecia ainda mais bela e envolvente.


Desta vez subiram sozinhos, sem fazer paradas nos andares intermediários, Antônio passou todo o tempo olhando intermitentemente para ela, de soslaio, e pensava em algo que poderia lhe dizer. “Frio hoje, hem?”, “O prédio está vazio hoje, não é verdade?”, “Que belo jogo o de ontem, não achou?”, “Esperei por você a semana inteira, pensei que não fosse mais voltar.”, “A senhora é a mulher mais bela que já vi em toda minha vida.” O elevador parou no 14. Ela se aproximara da porta, tinha o nariz adunco a menos de um palmo da estrutura metálica que súbito se abriu, foi dando um passo para sair e Antônio disse em voz tímida, mas doce:


– Boa tarde.


Respondeu em movimento com um aceno de cabeça e um “Boa ta…” que se perdeu no corredor. Para Antônio foi satisfatório, se sentia bem. Na saída ela pela primeira vez agradeceu, um “obrigada” simples e amável, que deixava no ar seu perfume inigualável. E esta passou a ser a rotina, toda quarta-feira entrava, pedia o 14, saia, dizia obrigada. E Antônio se rejubilava a cada semana. Passou a esperar este dia como uma criança que espera o Natal e seus presentes. Tornou-se vaidoso como nunca antes, cuidava sempre dos cabelos, a barba jamais estava por fazer, passou a usar um perfume que de muito caro não podia esbanjar. Então só se perfumava às quartas, para ela, cujo nome nunca foi capaz de descobrir. Era melhor assim, afinal de contas já lhe tinha dado um nome, que julgava mais adequado que qualquer outro registro oficial. Quando pensava nela, pensava em Regina.


Foi assim semana após semana. Certa vez Antônio programou sua pausa da tarde para coincidir com a saída de Regina, para assim poder segui-la. Deixou-a no décimo-quarto, desceu e em vez de tomar seu café com pão, se plantou na porta do edifício esperando que ela passasse. Esperou os quinze minutos que lhe cabiam de intervalo, e depois mais cinco, e teve de voltar, ao chamado do zelador que o substituía na operação do elevador e já estava impaciente com aquele serviço tão metódico. Não voltou a tentar, decidiu que devia preservar Regina naquele mundo específico, qualquer informação exterior destruiria o castelo que havia erguido. Com Regina, Antônio se tornou um homem melhor se abriu mais para o contato humano, rejuvenesceu.


Uma noite sonhou, que ao subir com ela o elevador parava por causa de uma pane qualquer. Ali naquela clausura forçada, se descobriam almas gêmeas, tinham afinidades diversas, prazeres em comum, descontentamentos parelhos. Conversaram sobre tudo, riam juntos gargalhadas de amor. Acordou empapado de suor e não pregou os olhos o resto da noite.


Passou-se não mais que três meses. Quando foi a primeira quarta-feira de agosto Regina não apareceu. Antônio pensou que estivesse doente ou que alguma coisa qualquer houvesse ocorrido, um parente enfermo, um compromisso fora da cidade. Mas ela não voltou em nenhuma quarta-feira mais, nem em nenhum outro dia. Antônio manteve as esperanças por um mês, depois caiu na real, qualquer que fosse o affaire que a trouxera ao departamento, o havia resolvido, estava livre, não precisaria nunca mais voltar àquele prédio velho e frio. Por vezes, ao ouvir o pedido “14, por favor.”, Antônio pensava consigo “Meu Deus é ela.”, mas rapidamente se apagava a ilusão.


Muito tempo depois, avançado em anos, Antônio F. pescando em frente ao seu rancho sentiu o perfume de Regina, olhou ao redor, mas não passava de uma flor singular que desabrochava no barranco à beira do rio. Sorriu.



Leonardo de Oliveira Cunha (pastiche de Italo Calvino), junho de 2006

FALA

Eu não sei dizer nada por dizer
Então eu escuto
Se você disser
tudo o que quiser
Então eu escuto
Fala
Se eu não entender, não vou responder
Então eu escuto
Eu só vou falar na hora de falar
Então eu escuto
Fala

23 novembro, 2006

07 novembro, 2006

A tecnologia em prol da nostalgia

A volta ao mundo em 80 dias

Abertura de um desenho que pouca gente viu. Pena que a música não está em português... quem se lembra? "São 80 dias, são, 80 nada mais para dar a volta ao mundo ..."

04 outubro, 2006

Francisco de Assis


Ele abriu mão de sua riqueza material. Amou os pobres, os renegados, os leprosos, a natureza, os animais. Ensinou que é mais importante amar que ser amado, que é perdoando que se é perdoado.
Como seria uma segunda vida de Francisco de Assis hoje em dia?

21 setembro, 2006

Leia... Leia!

O homem que trabalha, que minimamente ganha a vida, que leia! Leia em casa, no ônibus, no metrô. Leia naquela hora que os meios de comunicação devoram contando casos de polícia, bobagens incoerentes, mexericos e fatos muito menores, cuja confusão e abundância parecem feitas para aturdir e simplificar grosseiramente os espíritos.
Paul Valéry

08 setembro, 2006

Três cores, III

A fraternidade é multicolorida
Cores irmãs, tão diferentes por fora,
por dentro tão parecidas.
Vermelho é o sangue que nelas mora.

28 agosto, 2006

Três cores, I

A liberdade tem cor?
Se tiver, será azul, porque o azul não se prende.
No azul não há dor.
Ele, como a liberdade, é aquilo que se sente.

24 agosto, 2006

Mea culpa

Dirijo sozinho um carro que queima um litro de gasolina a cada 9 km.

Não reciclo meu lixo.

Gasto mais água do que precisaria ou deveria ao tomar banho, escovar os dentes, etc.

Não vejo tantos filmes nacionais.

Não lembro em que candidatos a deputado votei nas últimas eleições.

Não me articulo politicamente.

18 agosto, 2006

14 agosto, 2006

A Joey, Dee Dee e Johnny

I believe in miracles.
I believe in a better world for me and you.
I close my eyes and think how it might be.
The future's here today.
It's not too late.

10 agosto, 2006

"São raros os brasileiros dotados de liberdade substantiva, ou seja, em condições de vislumbrar alternativas para o seu projeto de vida, poder escolher uma delas e realizá-la, inclusive alterando-a parcial ou totalmente. A maioria está privada do direito à vocação e se submete à oportunidade de emprego, condenada a um trabalho que raramente se traduz em satisfação subjetiva, espiritual."
FREI BETTO

09 agosto, 2006

Ritas by leooc



É fácil dar uma de Andy Warhol na era da informática

Dicas de mãe para filho by William Shakespeare

Love all, trust a few
Do wrong to none: be able for thine enemy
Rather in power than use, and keep thy friend
Under thy own life's key: be cheque'd for silence,
But never tax’d for speech.
-All's well that ends well

Ame a todos, confie em poucos,
Não trate ninguém injustamente: faça que teus inimigos o temam
antes por sua força que pelo uso que possas fazer dela,
guarde seus amigos no peito a sete chaves:
Que seja censurado por seu silêncio,
Mas nunca condenado por suas palavras.
-Tudo bem quando termina bem

07 agosto, 2006

Sutilezas do Preto e Branco

Filme em super 8 que dirigi em 2004.

O que eu vi no FIT 2006.

Arka (Teatr Ósmego Dnia – Polônia): Plasticamente belo e grandioso.

Otra vez Marcelo (Teatro de los Andes – Bolívia): Poesia e política juntas e bem casadas como poucas vezes vi. Ainda chego lá.
*é deste espetáculo a citação da postagem anterior.

Hysteria (Grupo XIX de Teatro – São Paulo): Mais do que tudo, uma experiência.

O que seria de nós sem as coisas que não existem (Lume – Campinas): Esse pessoal é bom! Muito humano.

Saudade em terras d’água (Cie. Dos à Deux – Brasil/França): Preciosismo extremo. Tocante e universal. Técnica a serviço do sentimento. Nunca vou chegar lá.

06 agosto, 2006

"Eu te sussuro: Somos imortais, criamos um olhar que olha pelos dois aquilo que ambos deveríamos olhar quando já não estaremos em nenhum lugar."
Um pouco do grande Portinari

04 agosto, 2006


Breve aqui o filme

Eu queria fazer um filme

Eu queria fazer um filme. Um filme inédito, mas que eu, em algum lugar, em algum tempo, já vi. O personagem principal é um; o ser humano. A trama é a essência humana, o mote é o amor. O conflito é meu conflito interno. O desfecho é a vida. Os efeitos especiais são os sentimentos humanos. Meus olhos e a câmera se misturarão. Minha mente, com imaginação, fará a edição. Os espectadores serão transformados, se tornarão melhores.

04 julho, 2006

Muro

De um só impulso chegou no topo do muro. Ficou ali em pose de bailarino por três segundos. E com uma perna apenas saltou para o outro lado. Caiu fazendo logo três rolamentos laterais e pondo-se prontamente de pé. E passou a andar calmamente, como quem passeia no parque. Só a uns trezentos metro dali, espanou com a mão a terra que tinha nas roupas. E daí a alguns segundos começou a chorar. Não emitia um som, mas muita lágrima vertia de seus olhos. Encharcou as mangas da camiseta enxugando do rosto o suor e as lágrimas. Cessou o pranto. Diminuiu o passo. Olhou para o céu, e sorriu. “Meu pai deveria estar aqui”, pensou. Quando chegou no lago já não pensava em nada. Livrou-se das roupas, e atirou-se nas águas negras e geladas, agitando-as como há muito tempo não sucedia. Secou-se a sol, deitado na grama. Vestiu-se e seguiu caminho. Com os longos e anelados cabelos ainda molhados chegou num vilarejo cheio de casas rústicas todas amarelas de telhado marrom-avermelhado. Estava perdido, girava em torno de seu próprio eixo sem saber para onde seguir. Até que no meios das dezenas de casinhas distinguiu uma, que levava ao lado da porta o numero 135 pintado de tinta verde. Correu até ela, bateu na porta. Esperou inquieto. Abriu uma senhora de cabelos cacheados cor de prata. Abraçou-a num repente, e deixou-se ficar em seus braços longos segundos. Nunca mais voltou para o lado de lá e finalmente foi feliz.


Leonardo de Oliveira Cunha

22 de março de 2006

01 junho, 2006

Top 50 ...até 1996

Fiz um novo top 50, desta vez resolvi deixar de fora os filmes realizados nos últimos dez anos. Penso que o tempo é necessário para saber o quanto uma obra é relevante ou mesmo se gosto mesmo dela. Boa parte dos filmes listados eu vi mais de uma vez, e eles funcionam a despeito da sua idade. A maioria é incontestávelmente obra de arte. Esses são os cinqüenta de hoje ainda tenho muitos filmes a ver e rever.

1-O Gabinete do Dr. Caligari - Robert Wiene, 1919

2-Em busca do ouro - Charlie Chaplin, 1925

3-O Encouraçado Potemkin - Sergei Eisenstein, 1925

4-A idade do ouro - Luis Buñuel, 1925

5-Sem novidades no front - Lewis Milestone, 1930

6-Luzes da Cidade - Charlie Chaplin, 1931

7-Diabo a quatro - Leo McCarey, 1933

8-Cidadão Kane - Orson Welles, 1941

9-Casablanca - Michael Curtiz, 1942

10- Roma, Cidade Aberta - Roberto Rossellini, 1945

11- Os melhores anos de nossas vidas - William Wyler, 1946

12- Ladrões de Bicicleta - Vittorio de Sica, 1948

13- Crepúsculo dos Deuses - Billy Wilder, 1950

14- Um bonde chamado desejo - Elia Kazan, 1951

15- Cantando na Chuva - S. Donen, G. Kelly, 1952

16- Janela Indiscreta - Alfred Hitchcock, 1954

17- Noites de Cabíria - Federico Fellini, 1957

18- Doze homens e uma sentença - Sidney Lumet, 1957

19- A marca da maldade - Orson Welles, 1958

20- Quanto mais quente melhor - Billy Wilder, 1959

21- Os Incompreendidos - François Truffaut, 1959

22- Psicose - Alfred Hitchcock, 1960

23- La Dolce Vita - Federico Fellini, 1960

24- Acossado - Jean Luc Godard, 1960

25- O pagador de promessas - Anselmo Duarte, 1962

26- O Anjo Exterminador - Luis Buñuel, 1962

27- Deus e o Diabo na Terra do Sol - Glauber Rocha, 1964

28- A primeira noite de um homem - Mike Nichols, 1967

29- 2001, uma odisséia no espaço - Stanley Kubrick, 1968

30- Perdidos na noite - John Schlesinger, 1969

31- Laranja Mecânica - Stanley Kubrick, 1971

32- Gritos e Sussurros - Ingmar Bergman, 1972

33- O Poderoso Chefão - Francis Ford Coppola, 1972

34- O Poderoso Chefão-Parte II -Francis Ford Coppola,1974

35- Um dia de cão - Sidney Lumet, 1975

36- Um estranho no ninho - Milos Forman, 1975

37- Taxi Driver - Martin Scorsese, 1976

38- Annie Hall - Woody Allen, 1977

39- Manhattan - Woody Allen, 1979

40- Rock 'n' Roll High School - Allan Arkush, 1979

41- Touro Indomável - Martin Scorsese, 1980

42- Tootsie - Sidney Pollack, 1982

43- Scarface - Brian de Palma, 1983

44- O Baile - Ettore Scola, 1984

45- Asas do desejo - Win Wenders, 1987

46- A dupla vida de Veronique - Krzysztof Kieslowski, 1991

47- A Liberdade é Azul - Krzysztof Kieslowski, 1993

48- A Igualdade é Branca - Krzysztof Kieslowski, 1993

49- A Fraternidade é Vermelha - Krzysztof Kieslowski, 1994

50- Mallrats - Kevin Smith, 1995

02 maio, 2006

NADA

Nada. O que? Nada! Virou-se e foi embora. Três dias depois estava de volta. Desta vez estava mais sereno. O casaco pesado lhe dava uma aparência séria, destoante do clima informal e desleixado de seu all-star sujo e furado. Seu olhar estava cheio de sonhos, tão cheio que parecia estar preocupado, mas já havia passado desta fase, agora só vislumbrava os possíveis porvires, sem medo. No espelho lateral viu seu rosto e se descobriu uma pessoa diferente. Lembrou-se de seu pai, se distraiu em pensamentos e só voltou à realidade quando ela chegou. Pela primeira vez em semanas se abraçaram, e pela primeira vez por iniciativa exclusivamente dele. Ela gostou. Seguiu-se ao abraço uma troca de olhar prolongada, cuja duração não pode ser medida, pois nessas situações cada um tem sua percepção própria do tempo. Ela estava vestida somente com uma camisa de malha gasta e confortável, suficiente para a decência. Levava os cabelos desgrenhados, os olhos inchados, como de quem chorara ou acabara de acordar. Fizera as duas coisas. Ele não percebeu, apenas via nos olhos dela o pedacinho de alma, que Deus deixou amostra quando criou o homem. Ele respirou fundo e com a expiração soltou, E aí? Veio hoje à noite, respondeu ela sem pausa. Não se disse mais nada. Ele largou seu corpo e agachado chorou. Ela se aproximou tocou-lhe na cabeça. Ele enlaçou com os braços suas coxas e recostou a cabeça no ventre dela. Foi segundo momento de maior intimidade dos dois.

Leonardo de Oliveira Cunha

16 de maio de 2005

26 abril, 2006

Onde está nossa culpa?

Onde está nossa culpa? Nascemos com culpa de algo que não fizemos. Temos a culpa e somos vítimas, não obstante. Ostentamos luxos desnecessários, - que luxo é necessário?. Não desenvolvemos a verdadeira consciência e somos nós quem a deveria ter, pois tivemos e temos as condições para tanto. Comida, moradia, educação. E os agentes de alienação são ainda mais fortes e uma maioria nem consegue ver além, outros tantos vêem mas não agem. Ignorância é culpa, omissão é culpa. Nosso sistema é atroz, desumano. E cento e poucos anos de história nos fazem crer que não há outra alternativa, que é assim porque deve ser assim e nada se pode fazer. A mudança deve ser profunda e sistemática, mas é possível. Podemos e temos medo de saber que o poder está conosco. Na união, na miscigenação, está a solução. Se ainda discriminamos cor, como querer aprofundamento em questões mais complexas. Se não aceitamos crenças diversas, como pensar além. Somos inconseqüentes ao buscar diversão em algo ilícito, que ao comprarmos financiamos miséria, violência, dor, morte. As grandes companhias lucram com cigarro, álcool, petróleo, aço, refrigerante, tênis, sob o suor de trabalhadores mal remunerados, que não são nem ao menos capazes de adquirir o que produzem. E a publicidade alimenta sonhos, desejos, irreais, que só fazem aumentar as diferenças. A diferença entre ricos e pobres, entre querer e poder. Necessidade e desejo se confundem perigosamente. Temos medo de transmitir nossa indignação, não passamos para o próximo a vontade de mudança.


Leonardo de Oliveira Cunha, 8 de setembro de 2005.